A última semana do ano : a crise do coronavírus contada por um estudante pernambucano em Londres

Atualizado: Abr 15


Arte: Gabriela Leal


Coluna por Renan Araújo


Na coluna de hoje, decidi compartilhar anotações do meu diário de dez dias atrás, quando situação do coronavírus na Europa alcançou proporções semelhantes à da Ásia e os números ainda não tinham chegado a superar o Oriente. São relatos sobre meu dia a dia como estudante na London School of Economics, universidade que fica localizada no centro de Londres, na Inglaterra, antes de decidir deixar o país. Começo contando o último dia, domingo, e depois volto gradativamente pela semana a partir da segunda-feira. Tudo aconteceu muito rápido e acredito que esse desenvolvimento exponencial também ocorrerá no Brasil. Contudo, duas diferenças são fundamentais: primeiro, o sistema de saúde brasileiro é mais precário que o europeu; segundo, há mais tempo para se preparar e mais informação sobre o coronavírus. Considerando isso, o Brasil estará nas mãos das ações das autoridades governamentais e de cada um dos brasileiros. Espero que este relato contribua com a conscientização do que estar por vir em nosso país e do que é necessário fazer – o quanto antes.


Hoje, domingo, 15/03/2020

Hoje, mais da metade dos meus amigos viajou de volta para seus países de origem. Não sei quando ou se vou revê-los. Não esperávamos essa despedida precoce. A crise do coronavírus fez com que algumas universidades inglesas cancelassem as aulas presenciais e, como o semestre letivo termina em maio e depois só temos a dissertação, isso significou que as aulas acabaram – tudo será online. Além disso, a qualquer momento países em crise podem decretar um “lockdown”, ou seja, fechar suas fronteiras. Para evitar ficarem longe das suas famílias por meses, no dia em que minha universidade anunciou que cancelaria as aulas meus amigos compraram suas passagens de volta. Hoje encontrarão suas cidades pela França, Espanha e Itália com as ruas vazias, um estado pós-apocalíptico semelhante às fotografias da distante Wuhan da qual ouvimos falar pela primeira vez lá em janeiro.

Quanto aos que ficaram, como eu, resta o distanciamento social. Moro em uma acomodação estudantil em que vivem mais de 700 estudantes. Isso é excelente para nossa saúde mental, já que passar quinze horas trancado num quarto por meses não vai ser fácil. Encontro os amigos daqui para tomar chás, almoçar, jogar jogos de tabuleiro. Por sorte, praticamente ninguém do prédio está no grupo de risco. De toda forma, estamos aglomerados compartilhando cozinhas, banheiros e diversos outros espaços, como sempre. Londres não estabeleceu medidas rígidas como outros países. O governo do Reino Unido está utilizando uma estratégia diferente chamada ‘herd immunity’ (‘imunidade de grupo’): deixar que a população em geral pegue o vírus, protegendo os grupos de risco, para que todos desenvolvam anticorpos e a doença seja erradicada permanentemente. Mesmo assim, as consequências da crise são muitas: grandes eventos foram adiados, muitas pessoas voltaram para seus países natais, a economia está em permanente crise e todos que podem estão se isolando em suas casas, fortalezas de sabão e álcool gel. Todos estão preparados para viver essa rotina pelos próximos dois ou três meses: é o mínimo necessário para sobreviver à pandemia sem contribuir com ela.


A biblioteca da LSE, conhecida por ser a mais lotada de Londres, vazia. (foto do autor)
Uma semana atrás – segunda, 09/03/2020

A Itália começou a ver sua crise decolar. Acordei paranoico, com todos os pesquisadores que respeito fazendo dezenas de posts no Twitter sobre a gravidade da crise do coronavírus e sobre como a Europa não está tomando as medidas necessárias para contê-la. Fui à aula, assim como todos os estudantes da minha universidade, cujas salas permanecem lotadas. Só consigo pensar nas imagens de Wuhan e uma única pergunta me vem à cabeça: por que aqui seria diferente? Só consigo pensar que não há diferença. E que deveríamos começar a mudar nossos hábitos o quanto antes. Compartilho com meus amigos a minha preocupação. Eles me acalmam, argumentando que tudo está sob controle e que não precisamos nos preocupar. Afinal de contas, o sistema de saúde da Europa é bem mais preparado que o chinês. Levanto a questão da Itália, que está começando a perder o controle da pandemia. Eles argumentam que provavelmente é só um pico inicial e que dificilmente essa crise se espalhará como aconteceu na China. A tranquilidade deles me tranquiliza também. Continuamos nossa rotina normal nas salas de aula lotadas.

Cinco dias atrás – terça, 10/03/2020

A crise na Itália não foi contida e o país se tornou o segundo maior foco de casos de coronavírus no mundo, após a China. Agora, não só eu como vários outros amigos estão paranoicos com o rumo que essa crise pode tomar. Ao mesmo tempo, muitos permanecem céticos e torcem para que as atividades continuem normais. É compreensível: viajaram de todos os lugares do mundo para estar aqui, investiram economias, pararam suas carreiras, apostaram na educação que iriam receber nessa universidade. Agora, ter aulas canceladas é o pior pesadelo que passa em suas cabeças.


Eu também vim para cá viver uma experiência única, mas estou convencido de que a situação só irá piorar daqui em diante. Não é mais uma questão de preservar minha educação na universidade; é uma questão de saúde. Enviei uma mensagem ao grupo dos representantes de turma do departamento pedindo que nos mobilizássemos para que a universidade cancele as aulas o quanto antes. Contudo, fui recebido com ceticismo. Algumas pessoas que tinham contato direto com amigos na Itália e na Ásia compartilharam a gravidade do lockdown e da crise do sistema de saúde pública desses países, apoiando a ideia de pedirmos o cancelamento das aulas. Contudo, a maioria dos representantes afirmou que a situação aqui ainda não estava tão grave e que podíamos aproveitar algumas semanas de aula ainda. De toda forma, no meio da discussão, nossa universidade acabou enviando um email para todos os alunos – as aulas estavam mantidas e o risco que o coronavírus representa, de acordo com o governo, ainda é ‘baixo’.


Quase não dormi esta noite.


Quatro dias atrás – quarta, 11/03/2020

A preocupação tem afetado minha saúde e acordei sentindo o corpo dolorido. Estaria com febre? Qualquer alteração corporal me faz temer ter contraído o vírus. Isso me preocupa ainda mais: não sei se desenvolverei sintomas graves e ainda preciso ir às aulas dividir o espaço com centenas de pessoas. Inclusive, hoje terei uma reunião com meu orientador, um professor idoso.

Entro no site do NHS (‘National Health System’, o SUS britânico), onde eles disponibilizam um questionário para saber o que fazer caso você tenha algum sintoma. O site me diz para ligar para meu GP (‘general practitioner’ – todo morador do UK deve se cadastrar num consultório próximo de casa). Ligo e eles me informam que um médico poderá falar comigo por telefone, mas só daqui a dois dias. De toda forma, dizem para não me preocupar e continuar minha rotina normal. Vou para aula.

O clima na universidade, hoje, já é mais caótico. Muitos acreditam que as aulas serão canceladas a partir de abril. Alguns, como eu, querem que sejam canceladas já hoje. Preocupado, decidi estocar comida para pelo menos duas semanas.


Três dias atrás – quinta, 12/03/2020

Recebemos a notícia do que o governo britânico aumentou o alerta de risco do coronavírus para nível ‘médio’. Isso gera uma série de implicações: eventos cancelados, fechamento de alguns estabelecimentos que reúnem muitas pessoas. E, no mesmo sentido, recebemos durante a tarde um email da universidade dizendo que todas as aulas passarão a ser online a partir do dia 23 de março. Os professores, contudo, nos disseram que a partir desta segunda já implementarão as aulas online.

Seção de papel higiênico esvaziada em supermercado de Londres. (foto do autor)


A Itália se afunda cada vez mais na crise e relatos das ruas desertas e dos hospitais em colapso enchem as redes. A França e a Espanha começam a ver o número de casos aumentar descontroladamente. Hoje, o presidente francês declarou um ‘semi-lockdown’, no qual estabelecimentos não essenciais deverão ser fechados. Em Londres, os supermercados já estão se esvaziando – o primeiro item a acabar depois de álcool gel, curiosamente, foi papel higiênico.


A Itália se afunda cada vez mais na crise e relatos das ruas desertas e dos hospitais em colapso enchem as redes. A França e a Espanha começam a ver o número de casos aumentar descontroladamente. Hoje, o presidente francês declarou um ‘semi-lockdown’, no qual estabelecimentos não essenciais deverão ser fechados. Em Londres, os supermercados já estão se esvaziando – o primeiro item a acabar depois de álcool gel, curiosamente, foi papel higiênico.



Com esse desenvolvimento, meus amigos europeus surtaram. Os países estão fechando as fronteiras e eles querem retornar o quanto antes para suas famílias. Quase todos compraram passagens hoje mesmo para viajarem no sábado ou no domingo, antes que fronteiras se fechem. Tomamos uma última cerveja juntos na universidade – não sabemos se voltaremos para lá.


Ontem – sábado, 14/03/2020

Quase todos vão embora hoje ou amanhã cedo, então decidimos nos reunir e passar o dia estudando juntos. Não estamos mais saindo para locais públicos desnecessariamente, apesar de o governo britânico não ter aplicado restrições severas. Não somente nós, mas a população já esvaziou as estações de metrô e muitas ruas. A seriedade da crise do coronavírus finalmente chegou ao Reino Unido.


Margem do Rio Tâmisa em Waterloo, normalmente lotada numa tarde de sábado. (foto do autor)



A Retruco é uma agência de jornalismo independente de Pernambuco idealizada por jovens jornalistas, cineastas e designers que buscam novas maneiras de contar histórias através da combinação de formatos audiovisuais e textuais com um olhar crítico, sensível e criativo.

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