Be "Happy"? A saúde mental no Brasil e a relação com o filme Coringa

Atualizado: Mar 20


Foto: Coringa/Divulgação

O filme Coringa (2019), dirigido por Todd Phillips, dividiu opiniões. Em rodas de conversa, ouço algumas pessoas derretendo-se em elogios ao longa, e outras afirmando que este não passou de um pretexto para jogar holofotes em um vilão. Indubitavelmente, faço parte do primeiro grupo. Inclusive porque meus malvados favoritos são justamente os autointitulados cidadãos de bem.

Não sou consumidora de quadrinhos de heróis americanos e, na maioria esmagadora das vezes, assisto às adaptações cinematográficas só para ver até que ponto vai a lavagem cerebral norte-americana. Em geral, na disputa entre Marvel e DC, sou aquela que volta para casa com o dinheiro no bolso. Mas o Coringa é um personagem curioso, que traz à tona muitas questões delicadas para mim. Distúrbio mental, violência, desigualdade, criminalidade, disfunção familiar, pressão social, saúde pública, privilégios e o Estado e suas (dis)funções. Em um mundo pautado no fragmentário, no superficial, um roteiro que se propunha a tratar da construção de um personagem meio vítima, meio vilão foi o suficiente para me levar ao cinema. A realidade de Arthur não é distante da que vemos aqui no Brasil. Um sujeito que insiste quando todos os caminhos o levariam a desistir facilmente. Um pobre, mal assistido pelo Estado, vítima de problemas de saúde diante da realidade nua e crua da cidade grande. Gotham, que é um protótipo de Nova Iorque, poderia ser São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife… e o palhaço poderia ser qualquer criança criada sem pai, que divide com a mãe uma vida de restrições e que, além de sofrer de distúrbio mental, é vítima de bullying e toda sorte de maus-tratos, inclusive físicos. No último domingo (27), a Folha de São Paulo publicou uma matéria alertando sobre o crescimento do número de internações de jovens vítimas de transtornos mentais. Muitas dessas internações motivadas por tentativa de suicídio. Boa parte desse aumento de 36% refere-se a casos de internação de adolescentes de classe média alta, mas estima-se que esses dados, ao considerarem as classes C e D, sejam ainda mais alarmantes, ainda que subnotificados. Vários desses casos estão associados a comportamentos agressivos como o bullying, por exemplo, o elemento desencadeador da sina do vilão mais famoso dos quadrinhos. Ao mesmo tempo em que essas taxas clamam por atenção, vivemos um tempo marcado pelo senso comum. E é característico do senso comum a busca de respostas simples para situações complexas. É nesse contexto que, por exemplo, aparece a figura do coaching. Uma espécie de treinador de futuros “vencedores”. Na ausência de um Estado que viabilize tratamentos efetivos, surgem os elixis da felicidade e as fast-curas. Mas mexer com a mente humana é muito mais complexo do que trabalhar com frases motivacionais ou resumir um problema grave em uma questão de fé. O filme é cheio de mensagens sutis: a subida sofrida da sanidade pelas escadarias de um subúrbio e a descida leve e dançante da loucura escada abaixo. Há uma passagem do filme que ilustra muito bem a sensação de isolamento que pode causar uma sociedade de pseudovencedores. Nela, o Coringa escreve: “o mais difícil de ser louco é ter que fingir que não é”. Eu o corrigiria dizendo que não é preciso chegar necessariamente à loucura para experimentar essa sensação. Basta ir a uma escola e perguntar quantas crianças e adolescentes que ali estão dissimulam emoções, sentimentos e escondem comportamentos agressivos ou quantos foram vítimas de bullying e agressões físicas. Uma em cada dez crianças brasileiras se diz vítima de bullying. Para aqueles que só alcançam a realidade por meio dos números, saibam que esse é o tipo de estatística com a qual convivemos hoje. Os pilares básicos da dignidade humana são: saúde, educação e segurança. Foi preciso a ausência de tudo isso para que Arthur se tornasse o Coringa. E não há nisso qualquer tipo de determinismo, apenas uma tentativa de dizer, em poucas palavras, que o que distingue os destinos das pessoas são suas histórias e oportunidades.

A Retruco é uma agência de jornalismo independente de Pernambuco idealizada por jovens jornalistas, cineastas e designers que buscam novas maneiras de contar histórias através da combinação de formatos audiovisuais e textuais com um olhar crítico, sensível e criativo.

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