Chegamos em 2020 e falar sobre sexualidade ainda é um tabu

Atualizado: Mar 20


Arte: Camila Queiroz

Por Amanda Borba

Chegamos em 2020 e falar sobre sexualidade ainda é um tabu, especialmente em se tratando de sexualidade na adolescência. Enquanto isso, a cada dia surge 1 milhão de novos casos de infecções sexualmente transmissíveis (IST’s) entre pessoas de 15 a 49 anos, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), tendo entre elas, a clamídia, gonorreia, sífilis e a Aids como as infecções recorrentes entre os jovens.

Fase marcada por intensas mudanças e grandes desafios, tanto do ponto de vista psicológico e fisiológico quanto social, a adolescência é uma época de angústias, insegurança, curiosidade, experimentações e, muitas vezes, impetuosidade, o que pode aumentar a incidência das infecções sexualmente transmissíveis nessa faixa-etária.

Recentemente, o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, que tem como ministra a polêmica Damares Alves, posicionou-se a favor da abstinência sexual como política pública para evitar a gravidez na adolescência e as infecções sexualmente transmissíveis, na contramão do que os especialistas acreditam: o diálogo com os adolescentes deve ser o caminho. Em nota divulgada no dia 10 de janeiro, Damares afirmou que sua proposta “está sendo considerada como estratégia para redução da gravidez na adolescência por ser o único método 100% eficaz”.

Infelizmente, Damares parece ignorar outro dado importantíssimo: no Brasil, há 62 grávidas para cada mil jovens na faixa etária entre 15 e 19 anos. Ou seja, nossos meninos e meninas estão fazendo sexo hoje, agora – e engravidando! –, enquanto a ministra está vivendo a ilusão da abstinência sexual na adolescência. Então, fica aqui o questionamento para aqueles que se alinham à ideia da ministra: e se seu filho ou filha resolve, por ventura, ignorar a orientação da abstinência sexual? – o que não me parece um comportamento atípico para um adolescente, com os hormônios em erupção. Somado à declaração do MDH, o Ministério da Saúde interrompeu a circulação da caderneta de saúde do adolescente que era distribuída nas unidades básicas de saúde e continha informações sobre puberdade, sexo seguro e prevenção da gravidez precoce. O presidente Jair Bolsonaro justificou à imprensa que a caderneta seria suspensa até que fosse devidamente avaliada – embora não tenham sido divulgados até hoje, os critérios dessa “avaliação”.


Tudo isso representa tão somente um retrocesso na saúde pública, o que, aliás, não é exatamente uma novidade nesse Governo. Mas o que verdadeiramente impressiona é a falta de respeito e confiança no jovem, como se ele não fosse capaz de assimilar informação. Aparentemente, diante da luta para se levar o discurso do autocuidado aos adolescentes, o MDH colocou as armas no chão – para utilizar uma metáfora alinhada com o governo – e resolveu assumir-se como incapaz.


O trabalho com educação sexual na infância, adolescência e juventude deve ser feito no caminho da confiança, do estreitamento de laços entre família e escola. Um caminho de abertura, acolhimento e, principalmente, escuta. Estudos mostram que a consciência dos danos trazidos por essas infecções e do desenvolvimento de doenças gera, por si, impacto positivo no comportamento dos jovens. Do mesmo jeito que não se pode obrigar um adolescente (nem ninguém) a fazer sexo, não se pode negar a ele (nem a ninguém) o direito de fazê-lo quando a decisão for consciente e consentida pelo parceiro ou parceira. O máximo que podemos – e devemos! – fazer – enquanto familiares, escola e Estado – é munir esse jovem de informação.


A maioria das escolas voltaá às atividades no próximo dia 3 de fevereiro. E, enquanto as famílias provavelmente estão preocupadas com matrículas, listas de material escolar, uniforme etc., peço licença a vocês – também como mãe – para que estejam atentos a esse assunto. A melhor forma de prevenção às IST’s é o diálogo aberto e receptivo ao uso de contraceptivos na adolescência e um ambiente escolar, familiar e de convívio que promovam o acesso a informações sobre sexualidade e aos métodos de barreira. Exatamente o oposto do que concebe o mundinho azul e rosa da ministra Damares...

A Retruco é uma agência de jornalismo independente de Pernambuco idealizada por jovens jornalistas, cineastas e designers que buscam novas maneiras de contar histórias através da combinação de formatos audiovisuais e textuais com um olhar crítico, sensível e criativo.

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