Jornalistas recém-formados e o desafio de ocupar um mercado em colapso


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Tem sido árduo desvencilhar a palavra crise nas reflexões sobre jornalismo e os novos caminhos pelos quais a profissão busca trilhar. Profundamente afetado pelas mudanças estruturais provocadas a partir da onipresença da internet em nossas vidas, o jornalismo sofre com a precarização da profissão em níveis alarmantes. Em Pernambuco, demissões em massa nos jornais impressos tornaram-se rotina e a falta de perspectiva nestes veículos é desoladora. No rádio e na tv, produtos jornalísticos marcados pela mesmice de uma rotina produtiva limitante e, muitas vezes, problemática.


Enquanto o mercado jornalístico peleja, cada vez mais enxuto, os cursos na área formam centenas de novos jornalistas todos os anos. Em um breve exercício de memória, lembro que, só na Região Metropolitana do Recife, são oferecidos cursos de jornalismo na UFPE, UNICAP, UNIASESO, UNINASSAU, UNINABUCO, UNIFG e UNIFBV. Talvez haja mais. Nestes espaços acadêmicos, ambientes tão propícios à experimentação, as ideias pululam e não é raro vermos incríveis trabalhos produzidos pelos estudantes. Mas esses trabalhos, na maior parte das vezes, ficam restritos à academia e não têm alcance público. Como furar essa bolha? E uma questão ainda mais fundamental: como esses jovens jornalistas podem ocupar um mercado com tantas portas fechadas? Se desejamos discutir estratégias inovadoras para o jornalismo contemporâneo, o fortalecimento da representatividade de múltiplos corpos e vozes precisa ser o ponto de partida. Melhoramos muito nos últimos anos, especialmente com os esforços de iniciativas de jornalismo independente, mas ainda é pouco. Grupos sociais historicamente silenciados e marginalizados pela imprensa tradicional (ou nas palavras de Muniz Sodré, mídia jurássica) anseiam por narrativas que os representem e os contemplem. Lugar de fala e de imagem em um jornalismo feito por e para a população preta, indígena, feminista, LGBTQIA+. Um jornalismo, inclusive, para a juventude, camada social repetidamente negligenciada por um fazer jornalístico atado a um olhar adultocêntrico de sociedade.


Por uma prática colaborativa

Abrir caminho aos mais jovens é vital em termos de renovação do jornalismo. Na prática, isso exige quebras de paradigmas dentro da nossa área. Um dos maiores entraves a ser superado é a relação abismal entre a academia e o mercado. Talvez um dos grandes clichês dos campos da comunicação, essa falta de conexão entre empresas do ramo e a produção científica ainda é muito significativa. Como já mencionado, inúmeras pesquisas e produções audiovisuais de estudantes de jornalismo poderiam ser absorvidas por veículos de mídia, em um movimento de valorização dos nossos jovens talentos. Projetos entre instituições de ensino e organizações jornalísticas podem ser uma alternativa para promovermos mais alcance a tais produções.


Por outro lado, não podemos ser ingênuos e esperar a boa vontade dos veículos de hard news que, ao longo dos anos, parecem pouco se abalar com o declínio profissional do qual são integrantes. Talvez resida no caráter colaborativo do jornalismo independente o terreno fértil para um novo modelo de relações que abrace as aspirações - e inquietações - profissionais dos jornalistas recém-formados. Com potencial para multiplicar narrativas, vozes e subjetividades, as plataformas de mídia independente têm muito a ganhar com as reflexões nascidas no seio acadêmico.


Em paralelo, outro desafio para se ter em mente é como desenvolver projetos com crescimento sustentável e capazes de produzir receita. Como explicita a professora e pesquisadora Roseli Figaro, os arranjos jornalísticos independentes são caracterizados pelo “protagonismo da informalidade”, ou seja, por vínculos empregatícios quase inexistentes. Em alguns casos, os jornalistas não recebem por seu trabalho nas plataformas. Como reverter o cenário e pensar, junto com os jornalistas recém-formados que buscam espaço no mercado, estratégias para a estabilidade financeira dos atores envolvidos?

Algumas pistas: inovação em formatos e narrativas


São várias as interrogações. Menos do que tentar respondê-las, compreendo que é preciso fomentar o debate sobre as questões e rever nossas próprias atuações enquanto jornalistas e pesquisadores. É uma responsabilidade conjunta buscar, de forma dialógica e democrática, novos caminhos para um jornalismo mais plural, com mais oportunidade para jovens estudantes e profissionais recém-formados.


Do lugar de pesquisador e leitor das plataformas de mídia, entendo como imprescindível uma releitura intensa sobre formatos e possibilidades das tecnologias de mídia. Percebo que a maioria das organizações jornalísticas se limitou a transferir as características da mídia tradicional para o contexto online. O jornal impresso continua impresso, só que hospedado em um site. É preciso experimentar novos formatos, novos modos de se contar uma história que não se limite ao padrão texto + foto. As experimentações no ambiente acadêmico podem contribuir muito neste aspecto. A pluralização das fontes na feitura jornalística é uma questão-chave para a participação ativa de populações de minorias de poder e para “desestabilizar representações redutoras”, como afirma Fabiana Moraes.


Longe de qualquer pessimismo fácil e infrutífero, acredito que os jovens jornalistas serão sempre o respiro de renovação que movem a profissão a superar seus desafios. Silenciá-los é implodir o futuro de um jornalismo crítico e contundente, aquele que nunca envelhece. Cabe-nos o desafio de erguer cada vez mais pontes entre a experiência acadêmica e o mercado de trabalho.