Rede, afeto e resgate no enfrentamento ao feminicídio

Atualizado: Mar 20

Reportagem por Laís Nascimento


Ser mulher negra é carregar em nossos corpos diferentes formas de sobrevivência coletiva e individual. É se perceber herdeira de luta contra o apagamento e as vidas acorrentadas ao sistema racista e sexista. A violência contra nós encontra-se num ciclo cada vez mais alimentado pela estrutura enraizada e a falta de políticas públicas direcionadas ao gênero e cor.

Foto: Caio Santos/Divulgação

Morta a tiros dentro de casa. Assassinada pelo ex-companheiro. Marielle Franco. Elcida Ambrósio. Pernambuco é o terceiro estado onde é mais perigoso ser uma mulher negra em todo o país. Os dados são da Mapa da Violência de Gênero de 2016 e revelam: 63 negras foram mortas a mais em relação às não negras. Duzentas e cinquenta e sete assassinadas em 2017, de acordo com o Atlas da Violência, divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).


A Lei Maria da Penha, sancionada em 7 de agosto de 2006, e a Lei do Feminicídio, em 2015, foram algumas das maiores conquistas para o movimento feminista. Mas elas ainda têm cor e classe - apesar da maior parte das mulheres vítimas de violência doméstica serem negras. Sem o privilégio e aparato institucional, combater o feminicídio se torna uma pauta ainda mais prioritária quando falamos dessas vidas. O enfrentamento é político e social, mas também é econômico e identitário.


Camille Gomes é psicóloga social e pesquisadora e explica: “No Brasil nós temos um legado de pessoas que estão na política e que relativizam o contexto sócio-histórico brasileiro, sobretudo o contexto do Brasil colônia que, por quase 400 anos escravizou o negro. E essa escravização foi marcada pela violência, abuso e estupro. São relações onde a mulher negra é tratada como um objeto, tratada como mulher que presta serviços”.


Combater o feminicídio inclui maior participação política de mulheres negras e discussões sociais com as famílias em periferias. Mas, além disso, para desconstruir o sexismo e racismo estrutural são necessárias emancipação financeira e a criação de uma rede de apoio e identificação coletivas. Romper o ciclo que carregamos desde o Brasil colônia é prevenir o adoecimento da população e o encarceramento em massa.


Esse é um dos objetivos da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco: usar do fortalecimento da identidade, ancestralidade e do afeto revolucionário para combater a violência de gênero. Talita Rodrigues é psicóloga e uma das integrantes da Rede e explica: "O racismo se organiza nesse país de uma forma tão perversa que ele nos vulnerabiliza, nos mata e nos deixa morrer".


O fortalecimento conjunto é essencial para que a discussão chegue a outras esferas. E é com base na ampliação desse debate que surgem as ações de integração da Rede com homens e adolescentes negros. “Nós conseguimos trabalhar como o racismo dá pra eles como única possibilidade serem violentos com eles e com os outros. Pra mim, não tem como fazer enfrentamento à violência contra a mulher e ao feminicídio sem dialogar com homens, na desconstrução dessa masculinidade tóxica”.



Foto: Caio Santos/Divulgação


Acolhimento e reconhecimento da dor



Cristiane Ferreira não entrou para as estatísticas de mulheres negras vítimas de feminicídio. Agressão física, psicológica, estupro e cárcere privado foram algumas das formas de violência sofridas por ela.


Os corpos violentados carregam em si também a culpa e o peso de reviver o nosso passado escravocrata. “Eu dizia que isso foi algo que eu procurei e que ele estava certo. Que realmente eu não era pra ter aceitado, não era pra eu ter me envolvido. Eu queria dar um ponto final, só que ele disse que nunca ia acontecer, que não ia ter fim, que eu teria que ficar com ele”, lembrou Cristiane.


A comerciante foi acolhida em uma casa de proteção à mulher, mas depois sofreu outro tipo de violência: a do Estado. Reincidência. O combate ao feminicídio é também a prevenção dos casos de reincidência. É necessário o fortalecimento da mulher por meio do diálogo para que ela possa se empoderar dos seus direitos, identificar a violência que está sofrendo e romper com esse ciclo.


Cristiane voltou a sofrer com a violência doméstica. “Na segunda denúncia eu não tive apoio como da primeira vez. Somos julgadas por passar pela mesma situação e já não somos mais bem recebida como da primeira vez. O próprio delegado me xingou, ele humilhou, disse que eu passei por aquela situação porque eu quis e que eles não iria fazer B.O. Me senti discriminada, desrespeitada e insegura”, explicou.


Assim como as negras que quase viraram mais um número do feminicídio no estado, ela não é colocada no lugar social de vítima. O Estado e a sociedade coloca a cor preta de forma desumanizada, silenciada, na sombra. Apenas mais um número nas estatísticas. Mas encontrar com Cristiane é lembrar também da força, luta, combate e resgate. Mais de quatro anos depois das agressões sofridas, ela representa milhares de vozes ocupando um espaço que deveria ser nosso por direito: a vida.


O fortalecimento da mulher negra


Foto: Yane Mendes/Divulgação

A Campanha Mulheres Negras Pela Vida é mais uma das ações da Rede de Mulheres Negras do estado como enfrentamento ao racismo. “Para a gente, o racismo é um sistema que estrutura desigualdades, que vai se manifestar nas relações entre pessoas, entre pessoa e Estado, no desenvolvimento de políticas públicas, na forma como construímos o que é ser homem e o que é ser mulher. A luta no enfrentamento ao racismo precisa ser articulada e temos levado essa discussão para serviços de saúde, para escolas, para universidades”, explicou Talita.


Se fortalecer coletivamente, por meio de campanhas, ações, atos e rodas de conversas é resgatar a existência de Dandara, Marielle, Elcida. “Eu acho que quando a gente se encontra e se fortalece coletivamente, a gente tem menos possibilidades de estar numa relação de violência abusiva que nos fere e nos mata”, completa.


Cristiane, Camille, Talita. Por Marielle, pelas 257 pernambucanas negras assassinadas em 2017. O combate ao feminicídio pelo fortalecimento, a identificação, a rede que vai além da pele e se conecta pela ancestralidade. Afeto também é enfrentamento. É rede. O feminicídio negro nos lembra que somos a solução, prevenção e combate.


“Enquanto mulheres brancas estão mais preocupadas em ocupar o mercado de trabalho, a gente está preocupada em não morrer e não ter nossos filhos mortos na periferia”, completa Camille.


A Retruco é uma agência de jornalismo independente de Pernambuco idealizada por jovens jornalistas, cineastas e designers que buscam novas maneiras de contar histórias através da combinação de formatos audiovisuais e textuais com um olhar crítico, sensível e criativo.

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