Uma nova cara e um novo tom de pele pros espaços institucionais, por favor.

Atualizado: Ago 31

Por Eduarda Nunes

Ilustração: Gabriella Borges

Em meio a uma pandemia seríssima, vivemos mais um ano eleitoral e devemos ficar atentos: são tempos difíceis para os não sonhadores. No período de campanha nos deparamos com novas possibilidades de montar a Câmara Municipal, o Palácio das Princesas, o Congresso Nacional, o Palácio da Alvorada... Inúmeras chapas progressistas se propõem a disputar esse espaço institucional que é massante, por vezes, mas muito disputado sempre. Inúmeras formas de reconstruir o modo como interpretamos e permitimos que a política institucional aconteça, mas os resultados seguem os mesmos: quase nenhum negro, mulher, pessoa trans eleita... Como mudar esse cenário então?


Os tempos estão loucos e estamos ainda mais cercados e vigiados. O pessoal que compõe o Governo Federal é insano. O Sus sucateado (e, mesmo assim, muito explorado e suplicado nesse contexto do Coronavírus); cortes e perdas na educação pública em todos os níveis; incêndios criminosos na Amazônia; toneladas de óleo nas praias do Nordeste; super estímulo à ignorância em horário nobre; à violação dos Direitos Humanos e Ambientais também; cerceamento e descredibilização da imprensa; a “gripezinha” que já vitimou mais de 100 mil famílias, o Hidroxo de Cloroquina que dá em nada, na melhor das hipóteses, e por aí vai.


Nas eleições de 2018, a “renovação política” foi um dos temas mais discutidos tanto nas ruas como nos embates entre candidatos, mas os resultados não acompanharam as expectativas e o quadro de políticos eleitos para os cargos de deputados, senadores e governadores seguiu o mesmo padrão de décadas: o homem branco de meia idade. São poucos os espaços para as mulheres, e menos ainda para as mulheres negras. Em contrapartida, hoje, temos um presidente que por si só demonstra urgência na discussão sobre o nosso modo de entender a política.


Mesmo num cenário não tão animador, temos assistido uma ocupação preta feminina constante e crescente no Congresso Nacional. Do pleito eleitoral de 2014 pro de 2018 tivemos um aumento sensível, mas ainda assim significativo, de candidaturas de mulheres negras eleitas (de 9% para 10%). Em se tratando do país que vivemos e embora quantitativamente a coisa tenha ficado quase a mesma (somos 2% no Congresso), se manter nesse espaço é importante, mesmo que seja problemático e desgastantes sermos tão poucas lá.


Nós, mulheres negras, atuamos ativamente no fazer política desde sempre. Do Brasil Colônia até o Brasil de agora , nunca arredamos o pé. Fomos ativas no pré, durante e no pós- escravatura, sendo inclusive peças chaves/coringas no período pré-abolição, e seguimos liderando reinvindicações populares pelos pretos libertos até hoje. Mas quando se fala sobre o grupo de pessoas que tomam as decisões para a cidade, estado e país, nós, estranhamente, não temos qualificação.


Além do mais, a gente só pode estar falando sobre a presença de mulheres negras na política hoje a partir de DADOS porque em 2014, finalmente, o campo raça/cor foi incluso na inscrição das candidaturas. Ta aí a importância desse campo nos fomulários: quantificar, objetivamente, o racismo estrutural que a gente denúncia há décadas.


Por passarmos muito tempo maquinando sobre como sobreviver num país que nunca parou de atentar contra os corpos não-brancos, o povo negro, enquanto grupo político, ainda não conquistou a credibilidade necessária para serem eleito, para comandar. Ainda. O nosso projeto de poder está em curso.


Avançamos e, enquanto isso, diversas iniciativas são criadas para que possamos investir um pouco mais em determinados irmãos e irmãs. Um forte exemplo disso é a campanha Eu Voto Em Negra, que faz parte do projeto Mulheres Negras e Democracia, composto pela Casa da Mulher do Nordeste, Centro de Mulheres do Cabo, Movimento da Mulher Trabalhadora Rural do Nordeste em parceria com a Rede de Mulheres Negras do Nordeste e Rede de Mulheres Negras de Pernambuco.


O objetivo é fortalecer a candidatura de mulheres negras no Nordeste que comunguem com valores do feminismo, antirracismo e dos Direitos Humanos: dessa forma, um caminho para uma nova condução da política institucional começa a ser desenhado. Estamos no período de pré-campanha e já foram levantadas algumas pré-candidaturas promissoras em alguns bairros da Região Metropolitana do Recife que precisarão de apoio popular para se manterem.




Não é novidade que os partidos tem responsabilidade na sub-representação institucional do povo negro e originário, a construção do homem branco confiável não é só midiática. É de suma importância que a sociedade civil acompanhe, apoie e contribua de alguma forma essas candidaturas que, de fato, podem trazer renovação política real pro nosso estado e país. Vamos avante! Eu voto em negra!

A Retruco é uma agência de jornalismo independente de Pernambuco idealizada por jovens jornalistas, cineastas e designers que buscam novas maneiras de contar histórias através da combinação de formatos audiovisuais e textuais com um olhar crítico, sensível e criativo.

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