A chegada do coronavírus em Recife e o que o vírus mostrou sobre o Racismo Institucional na cidade

Atualizado: Abr 11


Paisagem do Recife visto de cima. Ao centro, o Rio Capibaribe aparece pintado de vermelho.

Arte: Gabriella Leal

Por Eduarda Nunes Parte do mundo está em casa. O novo coronavírus exigiu confinamento em massa, isolamento social e quarentena em países de todos os continentes. Essa epidemia global começou na Ásia, passou pela Europa até chegar nas Américas e nas Áfricas e no Brasil, o corona retira, mais uma vez, o véu do racismo “velado” nosso de cada dia. Como se prevenir? Lavando as mãos com água e sabão ou com álcool em gel com frequência, evitando aglomerações e compartilhamento de objetos. Coisas que parecem e deveriam ser simples, mas em um país profundamente marcado pela desigualdade racial-econômica chegam a ser certo tipo privilégio.


Ter acesso a água, sabão e álcool não deveria ser pra poucos, e viver em um local que oferece o mínimo de privacidade para o isolamento necessário também não. Essas são só as primeiras problemáticas que o vírus expõe. Quando a gente fala em racismo institucional, estrutural e ambiental parece que a gente tá inventando moda, criando história pra enfraquecer a “raça humana”. E, na verdade, é que o “somos todos iguais” é até bonitinho em tese, mas diz pouquíssimo sobre como a vida real acontece. Esse discurso tem como objetivo colocar todo mundo num suposto mesmo saco e repassar a responsabilidade de querer desestabilizar essa unidade para quem sente e/ou percebe as discriminações. Todo mundo é diferente, vem de lugares e realidades diferentes, reage às adversidades de acordo com suas compreensões de mundo e isso não deve ser determinante para o acesso, ou não, a bens e serviços essenciais. E é sobre isso que se trata o Racismo em todas as suas faces.


E o que o Coronavírus tem a ver com isso? É bem verdade que é difícil um país estar preparado para uma pandemia, ainda mais de um vírus tão contagioso como esse, mas também é verdade que o projeto político em curso no Brasil há alguns anos estava voltando a ser um projeto político de exclusão social completamente exposto, em que o de cima sobe mais e o de baixo, derrapa. O desmonte da educação e saúde pública já escancarava de volta o racismo das estruturas burocráticas formais brasileiras. 


Em quem dói mais um sistema público de saúde sucateado? Escolas públicas que não oferecem estrutura mínima de trabalho para os professores e possibilidades reais para os estudantes ingressarem num curso superior? Possibilidades que não pressupõem sacrifícios e grande privação de sono e descanso. A quem interessa universidades públicas que não tem estrutura adequada para continuar desenvolvendo uma ciência de retorno para a sociedade? Os primeiros casos suspeitos de Coronavírus no Brasil chegam através de pessoas que tinham voltado recentemente de viagem no exterior. O primeiro caso confirmado foi diagnosticado em São Paulo no final de fevereiro e em Recife foi só a partir de 12 de março que tivemos nossas primeiras confirmações de casos importados, locais e comunitários.


A capital pernambucana fechou o mês de março com 64 casos testados positivos e 5 mortes na conta da Covid-19. Bairros considerados nobres compunham mais da metade de todos os casos: nos entornos de Casa Forte e Boa viagem somaram-se 37 casos confirmados. Dado preocupante e que mostra um pouco do perfil dos primeiro infectados na cidade. Mas mais preocupante do que isso é que foi em um dos Distritos Sanitários (DS) com menos confirmações de casos que o corona foi mais letal. No DS VII, das 3 pessoas contagiadas até o fim do último mês, 2 vieram a óbito. E estamos falando de pessoas dos bairros do Alto José do Pinho e do Vasco da Gama, bairros pobres e historicamente negligenciados pelo poder público.


Entre Casa Forte e Vasco da Gama são cerca de 4 km de distância física e um abismo de distância social. A diferença no trato que os moradores de cada bairro recebem é gritante e prevista pela forma como o racismo opera na estrutura da sociedade brasileira (seja a partir das instituições ou das pessoas individualmente).


Arrisco dizer até que a máxima de que o Coronavírus pode ser fatal para qualquer um não passa de uma variação de um “somos todos iguais” ou “alma não tem cor”. O que explica que numa situação que deveria ser mais fácil controlar os estragos da doença, em tese, seja a que temos um percentual de morte tão perto do 100% senão o acesso insatisfatório a serviços e bens essenciais que as pessoas de bairros mais humildes passam cotidianamente? Não há despretensão na negliglência do serviço público.


No Boletim Epidemiológico do dia de abril fornecido pela Secretaria de Saúde do Recife não consta a identificação dos casos através do quesito raça/cor, mas em se tratando de Boa Viagem e Alto José do Pinho, qual é a cor e a condição social das pessoas que moram nesses lugares? Quem tem problemas de água, lazer e transporte público? Em quais desses bairros as pessoas dependem mais e penam mais pelo acesso ao SUS? Onde é mais gritante as problemáticas que giram em torno do Saneamento Básico? Não é que seja impossível existir pessoas negras em bairros nobres nem pessoas brancas em favelas, mas que a comunidade que ocupa cada um desses lugares tem um indicativo de raça muito forte e que é explicado a partir de dados históricos. E aí, a preocupação em garantir o Direito à Cidade vai variando de acordo com a escala de cor de cada local. O senso comum pode indicar que é exagero apontar o racismo como fator principal para boa parte, senão todas, as desordens sociais no Brasil, mas o que acontece é que é ele quem diz o sentido, a lógica, a tecnologia, o modus operandi para que as coisas aconteçam. É preciso que  permaneça explícito, embora alguns prefiram dizer que seja velado, quem pode morrer ou não. Quem pode ficar em casa em tempos de pandemia ou não.


E quando a gente fala sobre isso, a gente fala em a qualidade de vida, a saúde e a segurança alimentar serem coisas mais próximas e fluidas para um grupo do pessoas do que para outras. O trato elitista absurdo dado ao vegetarianismo e veganismo; os problemas de saúde que mais acometem as pessoas negras e que estão ligados principalmente ao modo de vida estressante e permeado por faltas (hipertensão, diabetes, alcoolismo, distúrbios psicológicos); a forma como se lida com a espiritualidade: são todos temas que perpassam essa discussão e é preciso que essas relações estejam o mais negritadas possível.


As ações que os governadores e prefeitos tem tomado hoje para a contenção do contágio do Coronavírus é louvável, mas é preciso considerar também o que tinha sido feito antes da crise chegar. A gente mede o compromisso dos gestores com a população que mais depende do serviço público em tempos de calmaria, em que é possível traçar planos de melhoria de vida a curto, médio  e longo prazo pra essas pessoas. Projetos que garantam que ser médico ou professor seja um sonho possível e perto da realidade de quem é filha de trabalhadora doméstica, manicure, operadora de caixa, pedreiro. Perspectivas positivas e inventivas de futuro.


Enquanto as instituições existirem controlando e manuseando as pessoas a partir de raça e classe, fazendo a manutenção do poder pra quem herdou os bônus da colonização, estaremos delineando o racismo como engrenagem essencial do Estado Brasileiro. Driblando e gingando com essas estruturas que há mais de anos nos querem mortos. Ou embranquecidos. Confira o boletim epidemológico da SES-PE do dia 1º de abril:






A Retruco é uma agência de jornalismo independente de Pernambuco idealizada por jovens jornalistas, cineastas e designers que buscam novas maneiras de contar histórias através da combinação de formatos audiovisuais e textuais com um olhar crítico, sensível e criativo.

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