Antirracismo pressupõe respeito e valorização das trabalhadoras domésticas


Arte por Camila Queiroz

Por Eduarda Nunes


O ano de 2020 foi bem cobrado pela pauta antirracista. Em meio a uma pandemia, acontecimentos trouxeram à tona a discussão sobre como mentalidades e costumes coloniais ainda se mantém nos dias de hoje. As condições sanitárias de bairros mais pobres que impedem uma melhor prevenção ao novo coronavírus e a letalidade desse vírus nessa população, assassinatos como o de João Pedro, adolescente que foi baleado pela polícia dentro de casa; e José Alberto, homem negro asfixiado até a morte em supermercado; e a queda do nono andar do filho de uma trabalhadora doméstica no Recife ilustram isso muito bem.

Esse último, o Caso Miguel, levanta várias questões sobre como a profissão das trabalhadoras domésticas é vista ainda hoje. Essa é uma categoria composta majoritariamente por mulheres negras e que tem suas raízes fincadas na escravidão: começou a partir de mulheres ex-escravizadas que, uma vez libertas, continuaram fazendo o trabalho doméstico que já faziam, mas com alguma remuneração. Isso diz muito sobre o tratamento que, no geral, essas trabalhadoras recebem ainda hoje. Enquanto a Medicina, o Direito e a Política, por exemplo, são as profissões de carreira das famílias de classe média e alta, o serviço doméstico ocupa esse posto nas famílias pobres. Em 2019, a historiadora, rapper e escritora Preta Rara lançou seu primeiro livro intitulado “Eu, empregada doméstica: a senzala moderna é o quartinho da empregada”, que conta histórias que ela escreveu e recebeu na página do Facebook de mesmo nome criada em 2016 com seus relatos de quando trabalhava na profissão. O livro começa contando a história da avó e da mãe da escritora, que também foram empregadas domésticas. Uma história que se repete em milhares de famílias que precisam que as mulheres comecem a trabalhar desde cedo em “casa de família” para ajudar no sustento da casa. Preta sempre comenta da surpresa e revolta que teve em criar a página para relatar suas experiências passadas e receber esses mesmos relatos ainda na atualidade.



Famílias que não permitem que a empregada use o banheiro, coma a mesma comida ou se junte à mesa na hora da refeição ainda fazem parte das relações trabalhistas dessas profissionais. Tão importantes quanto invisibilizadas, o desrespeito aos horários de trabalho e exigências descabíveis e desumanas ainda são praxes no país que foi o último a abolir a escravidão nas Américas.


A suposta Democracia Racial e o (não)nacionalismo que nega tudo o que é herança negra e indígena são disfarces da elite a seus próprios horrores que foram propagados pelos meios necessários. O racismo é um sistema de poder que mantém as pessoas brancas mandando e as pessoas negras e indígenas, servindo. Essa subserviência ao mesmo tempo que é estimulada por vias legais, quando essa população não tem amplo acesso aos seus direitos humanos básicos, mas também “precisa penetrar a mente do negro e do pindorâmico para convencê-lo de sua suposta inferioridade”. Quem afirma isso é Obirin Odara, assistente social, educadora e mestre em políticas públicas pela UNB, que complementa dizendo que “a mulher negra é colocada como aquela que deve prover todos os meios necessários para a manutenção do bem-estar da família dos patrões, mas sofre um processo de negação na medida em que se entende e quer ser tratada como trabalhadora que é”.

Mirtes e dona Marta (avó de Miguel) não tiveram a possibilidade de fazer o isolamento social e, além disso, tiveram que levar sua criança para o trabalho a por isso. O desfecho dessa história envolve a despreocupação da empregadora em cuidar de Miguel, em tocá-lo para levar para dentro de casa ou ficar com mãe no térreo e na morte dessa criança. A primeira audiência de instrução e julgamento desse caso aconteceu seis meses depois e a tática de defesa de Sari Corte Real é de culpabilizar a criança por ser uma criança. Alegam imprevisibilidade, querem rasgar o Estatuto da Criança e do Adolescente - e se ninguém prestar atenção, rasgam mesmo. Se a história fosse com o filho de empregadora, o tratamento era outro. “Se fosse o contrário, eu já estaria presa, e minha mãe levando uma vida degradante, tendo que ir ao presídio me visitar”, afirmou Mirtes em entrevista à Folha de São Paulo, em setembro. Gente preta, até morta ou buscando Justiça pelo filho, tá errada.


Antirracismo é romper com essa mentalidade colonial que utiliza até das estruturas do estado para fincar esse espaço de inferioridade e desvalor das pessoas negras e indígenas e superioridade das pessoas brancas. Desconstruir esse tipo de conduta requer muita atenção, disposição e barulho. Procure saber por onde contribuir para que Sari Corte Real seja responsabilizada e Mirtes e dona Marta possam, de fato, viver o luto do seu Miguel.


#JusticaPorMiguel

A Retruco é uma agência de jornalismo independente de Pernambuco idealizada por jovens jornalistas, cineastas e designers que buscam novas maneiras de contar histórias através da combinação de formatos audiovisuais e textuais com um olhar crítico, sensível e criativo.

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