Coronavírus e tecnologia: a realidade da exclusão digital em meio à pandemia


Arte: Gabriella Leal

Por Luane Ferraz


Aline Henrique, moradora do bairro de Tabajara, em Olinda, tem apenas 25 anos, quase a mesma idade em que pela primeira vez a internet ganhou força no Brasil. Hoje, ela não tem celular. E também nunca teve internet em casa. “Eu não tenho condições, isso pra mim é luxo”, conta. Segundo ela, os R$ 50 reais que precisaria

desembolsar para ter acesso à tecnologia significa menos comida na sua mesa, onde todos os dias comem ela, o marido e as duas filhas do casal, de 5 e 8 anos. Aline, que é dona de casa, explica que já teve um aparelho de celular e na época navegava pela internet através do wifi de uma vizinha. “Hoje isso não é mais prioridade para mim. Na verdade, já acostumei com essa realidade porque sei que não posso manter esse gasto”, desabafa.

Para ela, as notícias que o mundo vive uma pandemia também não vieram através das tecnologias. Bem como, as informações sobre os benefícios que a ajudariam a se manter nos próximos meses. “Pra mim, a comunicação acontece ‘boca a boca’ ou quando as líderes comunitárias procuram a gente para informar sobre alguma ação que está acontecendo”. Em Tabajara, a líder comunitária é Josene Pereira. Ela conta que apesar do trabalho presencial continuar, o contato virtual está sendo fundamental nesse momento. A internet tem sido uma forte ferramenta para a circulação de informação, mas é evidente que as orientações não chegam para boa parte dos moradores. “Não temos internet gratuita em nossa comunidade, isso dificulta nosso trabalho. Algumas pessoas saem de casa e vão à lan houses, outras pedem ajuda aos vizinhos. Não deveria ser assim. Mas o importante é que a vontade ajudar sempre se sobrepõe”.

Essa rede de solidariedade também atravessou a realidade de Aline quando ela soube que teria direito a um benefício de R$ 120,00 (cento e vinte reais), promovido pelo projeto Mãe da favela, liderado pela CUFA (Central Única das Favelas) de Pernambuco. Para fazer o cadastro, ela recorreu a um celular emprestado, neste caso, o da sua sogra. O mesmo aparelho pelo qual foi possível encontrá-la para realização desta reportagem. “Foi difícil, né? Eu tive que pegar um celular que não é meu, tirar foto porque o cadastro pede ‘selfie’, essas coisas. Além do mais, eu tinha que ficar perguntando toda hora se tinha já atualizado. Se o celular fosse meu, eu guardava e esperaria a oportunidade de conseguir uma internet”.

A mesma dificuldade aconteceu com o marido de Aline. Diferente dela, ele conseguiu o auxílio emergencial de R$ 600 (seiscentos reais) oferecido pelo governo federal. Mas, para isso, contou com a ajuda de um colega de trabalho. Foi necessário compartilhar todas as suas informações pessoais e pedir que ele monitorasse as atualizações do status. “Ele ficou dia e noite olhando o aplicativo para a gente. Ninguém gosta de passar todos os seus dados assim, né? A gente fica com medo, mas fazer o que? Pelo menos, o benefício foi aprovado”, conta ela.


A tecnologia é feita para quem e por quem?


As dificuldades descritas por Aline são as mesmas vividas por muitas famílias nas favelas da Região Metropolitana do Recife. Apesar disso, a falta de democratização no acesso à internet, ainda não é maior problemática desse cenário. Segundo o Data Favela, organização que reúne membros responsáveis pela CUFA, em 2013, 50% das favelas já estavam conectadas, sendo a Internet o principal ponto de contato com notícias, substituindo as TVs. A mesma pesquisa ainda mostra que 80% dos jovens com até 29 anos residentes nas favelas, já tinham presença nas redes. Sete anos depois, é possível deduzir que esse número só aumentou e que o divisor de águas, na verdade, é o grau de vulnerabilidade dessas pessoas aos efeitos de uma cultura digital.

A diretora executiva da Social Good, uma organização precursora no incentivo ao uso de tecnologias e dados, Ana Addobbati, conta que de fato existe um analfabetismo digital no Brasil e que há um verdadeiro desinteresse em empoderar a população para fazer uso da tecnologia a seu favor. “Se você tem uma interface que demanda pensamento lógico, leitura e interpretação para que tenhamos o pleno domínio dos comandos necessários, o que posso esperar de um país que tem 70% da população adulta em situação de analfabetismo funcional? É um cenário perigoso ver a população mais vulnerável com acesso indiscriminado à rede, mas tão passível de riscos e subutilizando esse recurso na busca dos seus direitos.”

Durante a pandemia ficou claro que um país, a exemplo do Brasil, que espera surgir uma crise para colocar a tecnologia a serviço da população acaba gerando um verdadeiro caos na sociedade. Segundo o relatório publicado no início de abril, pela dfndr lab — laboratório especializado em segurança digital da PSafe, mais de 6 milhões de pessoas foram vítimas de golpes ao tentar fazer o cadastro para o auxílio emergencial do governo federal. As dificuldades de acesso e falta de domínio com a plataforma, principalmente, levou centenas de brasileiros a se aglomerar dia e noite em filas nas agências bancárias da Caixa Econômica Federal de todo Brasil.

Na última quinta-feira (23), o Procon Pernambuco multou em R$ 50 mil, a cada dia, seis agências da Caixa localizadas no Recife e em Olinda, por descumprir a determinação de evitar aglomerações que possam colaborar para a propagação do coronavírus. Diante desse cenário, Addobbati ainda explica, “Quando se fala que inovação precisa de diversidade e exatamente para que plataformas sejam amigáveis, considerem que acesso e exposição à tecnologia o usuário tem ou teve e a linguagem. O recorte de idade, por exemplo, é desconsiderado. Dificilmente, um app feito em contexto de emergência conseguiria enxergar essa complexidade para que fosse 100% útil a essa população, por exemplo”.

Na Vila Popular, comunidade localizada em Olinda, a líder comunitária Jaqueline Silva conta que apesar de todos os alertas, ainda é alto o fluxo de pessoas que estão imprimindo o comprovante do ‘status’ do benefício e indo até as agências físicas. “É como se toda uma população tivesse uma formação de que se resolve as coisas presencialmente. Falta ‘letramento’ digital. E ainda há um desconhecimento muito grande dos critérios do benefício, quem pode se inscrever, etc. No mundo onde a gente tem que sair do presencial e ir para o virtual, a gente vê como isso atinge os mais pobres. Nós, em sua grande maioria, estamos de fora do processo”, reflete.

A lavadeira, Gleice Oliveira, de 34 anos, moradora de Tabajara, é uma dessas pessoas. Mãe de dois filhos, de 3 e 7 anos, ela conta que se viu obrigada a ir até uma agência da Caixa para tentar resolver o seu cadastro quando a sua situação financeira começou a apertar. Gleice tem celular, mas nunca teve condições de contratar uma provedora de internet. Antes da pandemia, as poucas vezes que precisou resolver uma pendência virtualmente, utilizou o wifi dentro da casa de uma colega de bairro, mas com o isolamento social, o contato com a vizinha ficou inviável.

“Eu cheguei a ir até na frente do portão da casa dela para tentar conseguir sinal. Me falaram que o melhor horário para ter acesso ao app era de madrugada, mas eu como eu ia estar na rua até altas horas com meus meninos pequenos dentro de casa?”.

Mesmo com medo, pois os dois filhos já tiveram pneumonia e fazem parte do grupo de risco, Gleice decidiu quebrar a quarentena. “Eu fui de máscara, guardei meu lugar na fila e fiquei do outro lado da calçada distante das pessoas, esperando a minha vez chegar. Quando voltei para casa fiquei com aquele pensamento que tinha sido contaminada, mas até agora estou sem sintomas, graças a deus”.


As redes de apoio

Foto: CUFA/Divulgação

Quando foram confirmados os primeiros casos positivos do coronavírus em Pernambuco, não demorou muito para que as organizações sociais que atendem às populações mais vulneráveis começassem a se articular no Estado. A presidente da CUFA de Pernambuco, Altamiza Melo, conta que apesar da falta preparo para enfrentar uma pandemia do ‘dia para a noite’, a instituição está conseguindo ajudar a população através da manutenção de três campanhas: Mães da Favela, #cufacontravirus e Projeto Difusão corona. “O desafio é grande. Falta alimentos, falta água e muita esclarecimento. Vários dos habitantes das favelas pernambucanas residem em moradias com um ou dois cômodos, pouca ventilação, frequentemente compartilhadas por um número grande de familiares. A recomendação de manter distância de outras pessoas para conter a disseminação do vírus parece simples, mas em locais onde existe uma alta densidade domiciliar como nas favelas, essa recomendação é simplesmente impraticável”, explica. Na comunidade de Chão de Estrelas, Zona Norte do Recife, o Centro Cultural Cambinda Estrela está sendo um ponto de apoio para os moradores. O espaço recebeu 70 cestas básicas do Porto Social Recife e da CUFA, que foram inicialmente doadas para as famílias que já são registradas no centro. A líder comunitária do local, Wanessa Santos, explica que o desafio agora é cadastrar as pessoas não associadas. “Nossa preocupação é atender a comunidade de Chão de Estrelas e também as suas adjacentes. Para isso, precisamos encontrar as famílias que estão necessitadas de ajuda, cadastrá-las e diante dos dados coletados começarmos a ter um norte por onde iniciar o apoio”. Infelizmente, essa não é uma tarefa fácil para Wanessa, tendo em vista que os desertos de dados geralmente existem onde estão as populações mais negligenciadas. Essa é uma realidade que, inclusive, desconsidera aquela que seria uma das grandes vantagem da internet para o poder público: gerar dados em locais nos quais essas esferas não conseguem atingir tão facilmente.

“A maneira como hoje se dá a comunicação para a favela, não é funcional e não atinge um número significativo de pessoas. É necessário falar a nossa linguagem, isso vale tanto para que as informações de como acessar o benefício do governo federal, como também para as medidas de proteção ao vírus", diz Altamiza.

"É preciso um outro tipo de abordagem para determinados nichos dentro da favela, somos muitos. Tem que ter um pensamento de tentar olhar para as especificidades a partir de cada cidade e região do nosso estado”, conclui a presidente da CUFA de Pernambuco.


Ação da CUFA na entrega de cestas básicas


A Retruco é uma agência de jornalismo independente de Pernambuco idealizada por jovens jornalistas, cineastas e designers que buscam novas maneiras de contar histórias através da combinação de formatos audiovisuais e textuais com um olhar crítico, sensível e criativo.

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