Corpos e emoções atravessadas


Arte por Ludelmas

Por Eduarda Nunes


Falar sobre a população negra nos países que sofreram colonizações é falar sobre como o controle dos corpos e das subjetividades desses sujeitos perpassa todo e qualquer assunto relacionados a eles. Para além de toda exploração da força de trabalho dos escravizados africanos, pouco se debruça sobre o saqueamento emocional dessas pessoas. Um dos escritos mais popularizados sobre o tema é de bell hooks e a professora estadunidense fez isso muito bem quando em Vivendo de Amor se dedicou a demonstrar como a escravidão afetou a forma de viver os afetos entre aqueles negros e que ainda hoje é possível identificar em sociedade.


“O sistema escravocrata e as divisões raciais criaram condições muito difíceis para que os negros nutrissem seu crescimento espiritual. Falo de condições difíceis, não impossíveis. Mas precisamos reconhecer que a opressão e a exploração distorcem e impedem nossa capacidade de amar.” (bell hooks em Vivendo de Amor, 1994)


O povo preto é um povo ferido e quem afirma não é só bell. No contexto da escravidão, a demonstração de sentimentos e afetividade deixavam os escravizados expostos, suas vulnerabilidades eram instrumentalizadas de modo a reforçar a dominação senhorial a qualquer custo. Hoje, olhamos ao redor e percebemos que enquanto o homem branco explora até outros planetas, a população negra ainda reivindica a humanidade e a vida.

Amor, raiva e saúde


Se sentimentos socialmente aceitáveis e romantizados como o amor e o carinho eram desencorajados, e até hoje convivemos com sequelas severas disso, o que esperar sobre a raiva para essas pessoas?


“É importante pensar a raiva como inerente e funcional ao ser humano, como toda emoção. A raiva surge a partir de uma situação de ameaça ou dificuldade e prepara o corpo para uma reação de defesa. Se coloca como uma questão de sobrevivência”, afirma Pollyana Ferreira, psicóloga e especialista em bioenergética. A agressividade é um nível de raiva, continua, energia que nos impulsiona para a vida e não deve ser vista ou estigmatizada como violenta. É por conta dela que nos desenvolvemos organicamente quando aprendemos a andar, por exemplo.


Na bioenergética não tem como falar da mente sem falar do corpo nem vice-versa, eles estão interligados. Essa é uma vertente da psicoterapia que considera que são desenvolvidas couraças nos indivíduos que represam energias específicas, os músculos se contraem de forma a interferir nos movimentos de contração, expansão e respiração que regulam o organismo. A partir disso, surge um sem número de problemas associados à saúde e é como aquele dito popular: guardar demais dá doença.


Em se tratando do sentimento da raiva, Pollyana alerta que é a não expressão da raiva em doses saudáveis e seguras (que não destrói nem o indivíduo nem os arredores) que leva à explosão (violência). E, por isso, a importância de locais seguros para liberar o sentimento, aprender a lidar com ele e evitar as couraças.


É esse ambiente seguro que parece ser o x da questão. Por anos a fio as mulheres negras carregam o estigma de serem raivosas e tem seus tons de vozes, posturas e expressões reguladas cotidianamente por todos os olhos. Se consideramos que a raiva é reação, o que tem de errado em essas mulheres reagirem?


O controle de emoções é acompanhado pelo controle do corpo, geralmente instrumentalizado em prol da produção econômica e a obediência dele, mas “no Brasil, o controle não chega nem a ser autoritário, ainda é colonial”, defende a psicóloga.


A lógica punitivista dos castigos que cuidava de manter os escravizados na linhas não acabou com a assinatura da lei áurea. Outras estruturas foram criadas para que estes corpos se mantivessem controlados: cárceres, manicômios, a polícia militar... Estar na linha, nesse caso, não é só se manter produtivo economicamente, mas distante do que pode vir a ser um novo projeto de poder pro país.


É nesse cenário que a psicóloga, que também é uma mulher negra, defende que o mito da mulher negra raivosa nada mais é do que uma forma de negação das pessoas brancas aos próprios horrores praticados historicamente. “Por não se entenderem enquanto opressores, eles passam essa responsabilidade para as mulheres negras e encobrem a legitimidade da nossa fala”. O Adoecimento, sobrecarga de trabalho e a violência que são direcionados para essas mulheres são instrumentalizados de modo a responsabilizá-las pela própria situação.


A não “permissão” do sentir tem efeitos inversos. Toda raiva que não pode ser expressa, é reprimida de modo a transformar-se num auto-ódio inconsciente. É a partir disso que podemos compreender os “negros racistas” ou as “mulheres machistas”. A necessidade de provar que não se “vitimiza” faz com que o indivíduo adote comportamentos que são nocivos para eles mesmos.


Nesse sentido, a importância de interpretações de mundo menos influenciadas pelas ideologias maniqueístas ocidentais aumenta. Nem tudo cabe na dualidade do bem x mal.

A quem interessa esse auto-ódio?

Como assim o pior racista é o próprio negro? Quem, em sã consciência e saúde, riscaria uma faca contra si mesmo? O auto-ódio é uma das armas mais potente pelas quais a lógica colonial da escravidão se perpetua. Não é à toa que o processo de assumir-se negro politicamente começa quando as pessoas negras passam a fazer o esforço consciente de “desembranquecer”. E isso vai muito além de usar o cabelo natural e passar a se entender enquanto um pessoa bonita.


É pelo auto-ódio que a população negra em geral não tem acesso à própria potência e não tem a autoconfiança estimulada e construída. A sub-representação negra no congresso e a sobrerrepresentação de homens brancos de meia-idade exemplifica isso muito bem. Por que candidaturas negras não se elegem? Além da falta de investimento dos próprios partidos nelas, também é preciso disputar com todos os estigmas e mentiras consolidadas que fazem do negro o único responsável pela sua condição social. A meritocracia que desconsidera e tira do campo de visão todo o histórico de violência de construção desse Brasil que vivemos agora.


É pelo auto-ódio que a gente acha que vencer é virar branco. É ter poder e posses para explorar outras pessoas, é ter conhecimento acadêmico suficiente para humilhar e/ou diminuir quem teve pouco ou nenhum acesso aos estudos formais. É sentir-se superior por não gostar - ou, supostamente, não sentir interesse - de estar em show de brega, baile funk, pagode. Se orgulhar de não ser uma pessoa “escandalosa” e se comportar feito “gente”(branca).


Toda e qualquer rejeição aos traços, heranças e reinvenções negras que sejam trazidas pelos próprios negros é auto-ódio e desfazer-se dele é um caminho que ao mesmo tempo que é necessário, não é simples. Quando a gente fala em racismo estrutural, a gente fala em ter o Estado e as instituições públicas e privadas usando suas estruturas para que a população negra se mantenha alheia à própria potência, já que a luta pela sobrevivência ainda demanda muito tempo e energia. Sobre isso, a mineira Lélia Gonzalez, um dos grandes nomes da intelectualidade negra brasileira, escreveu já em 1979, em Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira:



“Os diferentes índices de dominação das diferentes formas de produção econômica existentes no Brasil parecem coincidir num mesmo ponto: a reinterpretação da teoria do “lugar natural” de Aristóteles. Desde a época colonial aos dias de hoje, percebe-se uma evidente separação quanto ao espaço físico ocupado por dominadores e dominados. O lugar natural do grupo branco dominante são moradias saudáveis, situadas nos mais belos recantos da cidade ou do campo e devidamente protegidas por diferentes formas de policiamento que vão desde os feitores, capitães de mato, capangas, etc, até à polícia formalmente constituída. Desde a casa grande e do sobrado até aos belos edifícios e residências atuais, o critério tem sido o mesmo. Já o lugar natural do negro é o oposto, evidentemente: da senzala às favelas, cortiços, invasões, alagados e conjuntos “habitacionais” (...) dos dias de hoje, o critério tem sido simetricamente o mesmo: a divisão racial do espaço (...) No caso do grupo dominado o que se constata são famílias inteiras amontoadas em cubículos cujas condições de higiene e saúde são as mais precárias. Além disso, aqui também se tem a presença policial; só que não é para proteger, mas para reprimir, violentar e amedrontar. É por aí que se entende porque o outro lugar natural do negro sejam as prisões. A sistemática repressão policial, dado o seu caráter racista, tem por objetivo próximo a instauração da submissão psicológica através do medo. A longo prazo, o que se visa é o impedimento de qualquer forma de unidade do grupo dominado, mediante à utilização de todos os meios que perpetuem a sua divisão interna. Enquanto isso, o discurso dominante justifica a atuação desse aparelho repressivo, falando do de ordem e segurança sociais.” (Lélia Gonzalez em Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira, 1979).

Lélia foi uma das fundadoras do Movimento Negro Unificado, primeira organização nacional de iniciativas negras pelo fim do racismo no Brasil. Ele foi fundado há exatos 42 anos nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo e ainda hoje reinvindicamos boa parte das pautas daquele momento...


O auto-ódio da população negra é uma das armas mais potentes pelas quais a lógica colonial, violenta e silenciadora da escravidão se perpetua.

Amor cura


Embora o contexto pareça desanimador, bell hooks faz questão de lembrar de que a cura vem pelo amor que é intenção e ação. Intenção de emancipação dessas mulheres e tudo o que é feito para que isso aconteça (e que nem sempre vai ser através de beijos e abraços). São inúmeras as formas que a população negra em geral demonstra o amor, e a autopermissão em sentir a raiva é uma delas.


Pra que a raiva passe e abra caminhos para a movimentação e o afetos, ela precisa ser sentida e vivida. A cura vem pelo amor e pra chegar lá a gente tem que passar muita raiva. Tudo bem, não tem nenhuma contradição nisso.

A Retruco é uma agência de jornalismo independente de Pernambuco idealizada por jovens jornalistas, cineastas e designers que buscam novas maneiras de contar histórias através da combinação de formatos audiovisuais e textuais com um olhar crítico, sensível e criativo.

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