COVID-19: capitais paradas, interiores em movimento

Coluna por Jefferson Sousa


Arte: Gabriella Borges

Quando as primeiras paralisações começaram nas grandes capitais do Brasil por causa do novo coronavírus, no meio de março de 2020, uma considerável quantidade de pessoas começaram a voltar para as suas cidades de nascença, não só em busca de isolamento social, mas, talvez, por considerar a óbvia ideia de que seria melhor estar fora do epicentro. Este entendimento generalizado criou um tipo de êxodo contrário ao habitual, com não só universitários voltando para a casa dos seus pais, mas como também o retorno de nativos que não davam as caras há décadas. Em poucas semanas, cidades da caatinga, como as dos sertões de Pernambuco e Paraíba, ganharam o que não esperavam ter nem tão cedo: sotaques sulistas, ideologias contra-médicas e contaminação interna.


Desde o início de maio de 2020, com a Covid-19 já presente em peso no sertão. No Estado, apenas 12 municípios não possuem casos. Cenário diferente do início da pandemia, segundo a Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj). Com o transporte intermunicipal interrompido, algumas cidades criaram bloqueios para evitar as entradas de veículos de viagens clandestinos ou qualquer carro com mais de duas pessoas que não sejam da cidade. A necessidade individual de cada município só chegou a esse ponto por causa de uma série de negligências cometidas, principalmente, por pessoas contaminadas que trazem a doença consigo e, por causa de ideologia política, não respeitam o isolamento social, assim como a gravidade da epidemia.


Burrice ou maldade?


Em Russa Mansa, sítio da zona rural do município de Itapetim, no sertão do Pajeú, um homem de aproximadamente 60 anos voltou do Rio de Janeiro com a Covid e contaminou, conscientemente, algumas pessoas da área, segundo informações de dentro da Secretaria de Saúde do município. Como as zonas rurais dos sertões de Graciliano Ramos deram lugar a um espaço tempo onde há vilarejos independentes e com automobilização fácil - e, consequentemente, trânsito interno - , principalmente pelo alto comércio de motos de baixo custo pela ausência de documentos nas redondezas, sítios vizinhos ao do contaminador, como Sítio Manopla e Sítio Esperança, vêm sendo vítimas de uma única negligência.


"Avisamos e pressionamos o contaminado para que ele se isolasse, avisamos aos familiares do contaminado das exigências e necessidades, mas tudo que ouvimos foram palavras tratando a doença como algo bobo e sem perigo", conta um profissional da saúde que atua na região. "Os discursos ideológicos que criticam o isolamento social e as fake news que espalham falsas curas têm sido tão ameaçadores quanto o próprio vírus", conta outro profissional, que atua no local e em uma cidade da Paraíba. Ambas as respostas foram dadas no dia 19 de maio de 2020, data em que a secretaria de saúde da cidade confirmou que o número total de contaminados no município com a Covid-19 duplicaram em 24 horas.


Da mesma forma que há despreocupados, existem os super preocupados. Parece que o "tudo demais é veneno" não se aplicaria em uma pandemia, mas tudo é questão de ótica. Um aspecto popular da maioria das cidades pequenas é que todos se conhecem e sabem das vidas uns dos outros, mas esta peculiaridade vem gerando preconceitos com possíveis contaminados, havendo, inclusive, em algumas cidades do Cariri da Paraíba, testemunhos de tentativas de linchamento de vítimas da Covid que não estão seguindo devidamente o isolamento. Falando disso, o 'filho ausente' que contaminou e estava gerando riscos aos moradores dos sítios ao redor de Russa Mansa entrou em isolamento absoluto após ameaças feitas por parte de populares locais.


Novas terras, mesmos heróis


É indiscutível que os profissionais da saúde são os heróis desta tragédia global e que se não fosse pelo comprometimento de cada um destes os números seriam bem piores. Todavia, é difícil voar sem asas ou pelo menos uma garantia de que se o voo falhar haverá algo no chão contra a queda. Dentro do acompanhamento desta reportagem, que de 20 de março a 20 de maio de 2020 examinou 11 municípios do Sertão do Pajeú de Pernambuco e Sertão do Cariri da Paraíba, houveram denúncias graves em pontuais logradouros, como secretário de saúde mandando enfermeira reutilizar máscara descartável de uma colega, e reclamações mais repetidas, como a ausência de álcool gel em postos de saúde, mas, pelo menos estas citadas, foram solucionadas no andamento dos dias.


Houveram também isolados relatos de médicos se recusando a examinarem pacientes que apresentavam algum dos sintomas do vírus, com justificativas aproximadamente comuns ao de negação dos sintomas. Em Teixeira-PB, por exemplo, um paciente utilizou as redes sociais para denunciar que um determinado médico se recusou a atendê-lo devidamente nas duas tentativas de realização de exames para o vírus, chegando para a triagem de uma destas com fortes problemas respiratórios.


Em contramão, a imensa quantidade dos testemunhos que a reportagem apurou aponta para o que mundo vem acompanhando no últimos meses: a admirável e complicada tarefa de quem está tendo que enfrentar um tsunami em um bote sem remos. Em Patos-PB, onde o número de contaminados supera, com exceção do Recife, qualquer cidade da Região Metropolitana do Recife, os médicos, técnicos de enfermagem e enfermeiros são uma das principais vítimas do vírus justamente pela desgastante carga horária e dedicação implacável pelas vidas dos pacientes.


Concordamos que toda admiração é pouca para dedicar aos enfrentadores da epidemia, sejam os da saúde ou de outras áreas, mas não devemos esquecer ou amenizar o peso e a cobrança de políticas eficazes por parte do Estado também em áreas não centrais, para assim evitar mais determinados sucateamentos e ausência de suporte aos profissionais mais vulneráveis. Nesta época nebulosa de tragédias e imprevistos ferozes, um texto jornalístico às vezes fica obsoleto antes mesmo do término de sua leitura, mas as suas motivações, então, não esqueçamos: vítimas são mais do que números.

*Entrevistados não foram identificados por questões de segurança.

A Retruco é uma agência de jornalismo independente de Pernambuco idealizada por jovens jornalistas, cineastas e designers que buscam novas maneiras de contar histórias através da combinação de formatos audiovisuais e textuais com um olhar crítico, sensível e criativo.

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