Existe uma crise no jornalismo tradicional do Nordeste?


Foto: Marlon Diego

Daniel* tinha tudo o que todo jornalista deseja: diploma em universidade de prestígio, estabilidade financeira e reconhecimento pelo seu trabalho. Mesmo com uma carreira consolidada, ele não contava que iria colidir com os percalços do mercado jornalístico no Nordeste. Trabalhando na TV Tribuna, afiliada da Rede Band em Pernambuco - que pertence ao grupo João Santos -, o jornalista e seus colegas de empresa viviam um cenário de insegurança financeira, anulação de direitos e iminente demissão, tudo isso causado pela tão espantosa crise do jornalismo.


“Costumava ser prazeroso trabalhar lá. Era um ambiente de solidariedade em um veículo que pagava um salário até que razoável”, detalhou Daniel. Ainda em novembro de 2021, os jornalistas, radialistas e outras classes da TV Tribuna decretaram greve, motivados pelos quase três meses de salário em atraso, incluindo também as férias e o FGTS.


O agravamento da situação dos trabalhadores teria começado no início de 2020, período que marca a chegada da pandemia. “O pagamento ou atrasa ou é dividido em parcelas de R$ 500. Isso é um desestímulo para nós, que ainda assim continuamos trabalhando. Depois de passarmos 2 meses sem receber, resolvemos acionar o sindicato e fomos conversar com os patrões, que disseram que quem não gostasse, poderia se demitir, e realmente muitos foram desligados da empresa. A partir daí descobrimos que eles estavam a 4 anos sem pagar o FGTS”, confessou Daniel.


Hoje, a emissora se encontra desfalcada de mão de obra, sobrecarregando os funcionários que restaram. “Dois jornais tiveram que sair do ar, e um deles é o Jornal da Tribuna, que existe desde do começo da TV Tribuna. Infelizmente, casos como esse não são raros no estado”. A história de Daniel se encontra com a narrativa de centenas de profissionais da região nos últimos anos. Existe uma crise que começou nos grandes jornais na década passada, mas que em tempos recentes passou a se estender aos grupos de radiodifusão do Estado.

Crise da categoria

O relato de Daniel não é único. Uma crise foi instaurada no jornalismo nordestino, sobretudo o pernambucano, nos últimos anos. Demissões em massa, perda na qualidade do trabalho, retaliações por parte do patronato e queda significativa na arrecadação dos meios fazem parte da rotina atual das grandes redações.


Um dos casos mais recentes foi o das demissões nas TVs Tribuna e Guararapes - esta afiliada ao grupo Record. Foram 24 profissionais demitidos nos dois grupos. Na Tribuna, foram 15 trabalhadores, sendo cinco jornalistas envolvidos. Enquanto isso, a Guararapes demitiu 9 profissionais, sendo o sindicato da categoria.


Severino Jr, presidente do Sindicato dos Jornalistas de Pernambuco, aponta que essa crise vivida pela categoria hoje é fruto de dois principais fatores: a própria crise econômica e política que assola a todas as outras classes empregatícias, mas também da mudança no consumo da informação e também na forma em que se capta recursos que o jornalismo vem vivendo - fato em que a mídia convencional de Pernambuco ainda luta para acompanhar.


“Somos um setor da sociedade muito dependente dos outros setores, quando esses outros setores estão em crise, somos um dos primeiros a sentir. Há um enfraquecimento no setor jornalístico, primeiro, porque a notícia tem sido levada por pouca gente”, explicou.


A principal fonte de renda do jornalismo e dos jornalistas, há tempos, vem da publicidade veiculada. Porém, as novas formas de comunicação digital e a facilidade de acesso à internet têm mudado o panorama, implicando diretamente tanto na qualidade da notícia para quem consome, quanto no pagamento do salário de quem produz.

“Em Pernambuco, tem o exemplo de uma empresa que possui uma conceção de rádio, de TV, jornal impresso e um portal online. Isso significa que, além de gerar um mesmo olhar em vários meios, limitando os pontos de vista, é um único jornalista para tudo. Ele escreve para o impresso, compartilha no online, grava para TV, faz um flash para rádio e ainda cria um story para o Instagram. Isso ganhando um único salário, muito mal pago”, expôs Severino.


E as novas formas de consumir e produzir conteúdo também tem sido um desafio, requerendo novos modelos de negócio. Os influenciadores digitais são vistos diariamente por milhões de pessoas. É isso que as pessoas querem ver, não mais o NETV, o TV Jornal Meio-Dia. O salário de um jornalista no Diário de Pernambuco há 20 anos atrás, por exemplo, representava o dobro ou triplo do que é hoje”.


Por ser entendido como uma “janela da realidade”, o jornalismo deve acompanhar as mudanças dessa realidade. E, como pontuou Severino sobre esse aspecto da crise no jornalismo, "cabe a nós, jornalistas, vermos como ajeitar isso”.


O fato da notícia ser levada por pouca gente, como comentou o Presidente do Sinjope acima, é uma consequência de diversos processos. Mas pode também se tornar problemas de outros mais. A falta de representação nas redações leva a uma limitação nos tipos de pautas e que realidades elas retratam. Os desertos e quase desertos de informação Divulgado em fevereiro de 2022, o Atlas da Notícia, iniciativa que mapeia veículos produtores de conteúdo jornalístico, apontou que 5 em cada 10 municípios brasileiros não possuem noticiários locais. O estudo nomeia esses lugares como desertos de notícias. Há 968 cidades nessa condição e nelas vivem 29,3 milhões de pessoas, correspondendo a 13,8% da população brasileira. Existem também os quase desertos, cidades que possuem apenas um ou dois veículos jornalísticos.



“Conceitualmente, a gente considera desertos de notícias aqueles municípios onde a gente não conseguiu mapear nenhuma iniciativa de jornalismo local com cobertura noticiosa local. E por que isso é importante? Em um deserto de notícias, a população não tem acesso à informação qualificada, checada, apurada como a gente tem no no bom jornalismo, como por exemplo a atuação da sua câmara de vereadores e da prefeitura local. Há uma dificuldade de ficar sabendo sobre o funcionamento da creche, do posto de saúde, que é o que a cobertura noticiosa local também cobra", diz a jornalista Mariama Correia, coordenadora do estudo no Nordeste.


De acordo com a pesquisadora, essa falta de veículos nos locais provoca uma reação massiva, em decorrência da ausência do bom jornalismo. "Nesses desertos de notícias também as populações são mais vulneráveis à desinformação, né? E aí é onde você não tem a cobertura noticiosa sobre a sua cidade. Muitas vezes você fica sabendo mais sobre o que acontece no Rio de Janeiro ou em São Paulo. É super importante pensar agora no próximo ano, que é o ano eleitoral, que a identificação desses desertos no Brasil é fundamental. Para gente entender os impactos que a ausência do jornalismo pode causar", diz Mariama.

Oportunidades de trabalho escassas


A falta de meios de comunicação sérios implica também na empregabilidade de jornalistas fora das capitais. Muitos deles saem de suas cidades para que possam exercer a profissão sem as amarras que o mercado local oferece. Além disso, esses profissionais avaliam e concordam com o que o estudo do Atlas aponta sobre a desinformação nos interiores. “Ou eu vou ficar desempregada ou dependendo dos políticos. Se os jornalistas já são deslegitimados, em cidades como a minha é pior. ”, é como analisa a estudante de jornalismo Cynara de Paula, moradora de Vicência, a 89 quilômetros da capital pernambucana. Aos 19 anos, ela já tem certeza que não tem interesse em exercer a profissão na sua cidade.


Com aproximadamente 30 mil habitantes, existem apenas 2 veículos que possuem periodicidade na cidade: a rádio Vicência FM e o Blog do Djalma Lopes. “É por essa carência que noto a existência de uma desinformação em massa aqui”, revelou.


“Em parte, a falta de informação nos interiores atende ao interesse dos políticos, em manter a população na ignorância. E até o jornalista que produz sobre o interior acaba sendo refém de alguma força empresarial ou política”. Essa realidade retrata exatamente do porque, segundo o Atlas, os quase desertos são um risco.


A estudante ainda tece críticas aos veículos tradicionais, que posicionam-se como pernambucanos, mas não fazem uma cobertura equilibrada do território pernambucano, podendo limitar a noção da plural cultura pernambucana. “Tudo está tão concentrado na metrópole que a gente acaba sendo ignorante sobre o nosso próprio estado. Aqui temos vínculo forte com o maracatu rural, somos culturalmente ricos, mas para metade de Pernambuco não somos interessantes. Isso não acontece só com minha cidade. Parece que quando falam de Pernambuco, ou falam do sertão de maneira estereotipada, ou de Recife”.