Fazendo jornalismo em meio a tudo isso

Atualizado: 20 de jul.


Ilustração: Luca Delmas

A verdade é que não é o jornalismo que está em crise: são as empresas jornalísticas tradicionais. É o que Carol Maia, jornalista, professora universitária e co-fundadora da Marco Zero Conteúdo, acredita quando a conversa chega nesse assunto. Carol viveu e sobreviveu a algumas transformações marcantes do jornalismo: quando a internet não interferia em quase nada no trabalho da redação do jornal em que trabalhou por 17 anos e quando o jornal impresso se tornou “produto de nicho” e ficou em segundo plano justamente por conta da internet, dos smartphones e as tecnologias da informação. “O processo de transformação sempre existiu, mas agora está tudo muito mais rápido”, conta.

Em 2014, junto com Laércio Portela, Sérgio Miguel Buarque, Samarone Lima e Luiz Carlos Pinto, foi dado início ao que hoje é o primeiro veículo de comunicação independente investigativo do Nordeste. Insatisfeitos com as práticas do jornalismo tradicional e observando uma perda de qualidade e independência no ofício por conta, dentre outros motivos, do aumento de anunciantes priorizando o espaço online, os jornalistas se moveram. A diminuição de patrocínios deixaram uma sensação de que as redações ficaram “reféns” e a interferência nos conteúdos e no exercício do ofício ficaram mais perceptíveis.

Estudando e refletindo sobre o jornalismo independente que estava sendo feito no Brasil, na América Latina e, em menor medida, nos Estados Unidos e Europa, os jornalistas criaram o modelo de negócio mais possível e estão no ar desde 2015.

É importante salientar que poucas vezes foram flores: o coletivo passou os dois primeiros anos funcionando sem receita, com financiamento dos próprios jornalistas. O primeiro contrato, salários e novos colaboradores só vieram em 2017 a partir de financiamento internacional (OAK Foundation). Durante esse período, a Marco Zero Conteúdo, e tantos outros coletivos que surgiram pelo país nesse mesmo período, foram galgando a confiança e fidelização de seus públicos, disputando narrativa com o jornalismo tradicional.

Carol comenta, ainda, sobre a “tempestade perfeita” para que as iniciativas independentes de comunicação surgissem: profissionais insatisfeitos, audiência insatisfeita e o golpe parlamentar na ex-presidenta Dilma. A mídia estava em foco e as Jornadas de Junho (2013), embora ainda sejam enigmáticas, colaboraram com esse impasse de credibilidade que o jornalismo tradicional vive hoje.

A imparcialidade jornalística em meio a tudo isso


Um dos pilares do jornalismo independente é a multiparcialidade. No sentido de deixar explícito que a imparcialidade, além de impossível, é instrumentalizada para influenciar a opinião pública, por vezes, à ideologias que prejudicam a vida harmoniosa em sociedade. É importante saber quem está falando e o que guia quem dá a notícia.

Uma outra marca da atuação desses veículos é o trabalho em rede. Assumir a parcialidade é também assumir certas limitações e necessidade de colaborações com outras iniciativas. A concorrência fica em segundo plano.

Na era das massa de mídias, veículos independentes têm optado pela dedicação e aprofundamento de determinados temas e territórios. Atingir todo mundo sem distinção já não tem o mesmo valor do que antes, sobretudo em se tratando de um país cujas regiões onde tem mais desertos de notícias são as mesmas que são negligenciadas histórica e politicamente: o Norte e o Nordeste.

Esse aumento na quantidade de veículos possibilita certa independência aos profissionais tanto em relação aos grandes veículos de mídia como também editorial. A jornalista Joana Suarez é uma recifense que vive em Belo Horizonte e que há quatro anos teve a oportunidade de deixar o trabalho na redação tradicional para viver “freelando”. A experiência foi tão impactante que desde 2020 ela iniciou o curso Redação Virtual, que se propõe a preparar jornalistas para esse trabalho mais independente. Com quatro edições, cerca de 400 participantes de 50 cidades, que movimentam uma rede colaborativa de comunicadores, Joana sente que a comunicação independente passa por uma catarse de criação. Entretanto, ainda é preciso que os jornalistas independentes tenham suporte para dar conta das oportunidades que surgem e dar vazão aos próprios insights.

Na visão de Joana, a crise de credibilidade que a mídia tradicional atravessa oportuniza que seja feito um jornalismo como nunca antes: “Um jornalismo muito mais ousado e corajoso”. Mesmo assim, esse tipo de jornalismo ainda precisa de mais perspectiva para assegurar uma boa vida e perspectivas futuras aos profissionais que estão se propondo a fazer. A jornalista comenta que ainda existe muita gente despreparada para esse cenário e que seria necessário existir mais Redações Virtuais por aí para dar conta de auxiliar essas pessoas que estão chegando na área. “Os jornalistas autônomos têm outros caminhos a percorrer para além de ser só repórter”, é contatar veículos e outros profissionais, vender pautas, produzir, publicar e monitorar os impactos pós publicação, enumera Joana.

Diversidade em tudo isso

Como resposta ao jornalismo tradicional, as mídias independentes trazem a diversidade como base e razão de existirem. Esses meios são até pedagógicos em provar, na prática, que é possível demarcar gênero, raça e, sobretudo, território na notícia. O êxito é tanto que a cena tradicional passou a ser mais cobrada pelos próprios expectadores sobre isso.

Jornalista formada pela Universidade do Ceará (UFC), Larissa Carvalho se descobriu negra enquanto estava na graduação. Foi nesse contexto que ela entendeu a potência de sua futura profissão enquanto ferramenta de ativismo negro. Ela confia que “a informação deve melhorar a qualidade de vida das pessoas”.

Atualmente ela é fundadora, CEO e editora-chefe do primeiro portal de mídia negra nordestina do Brasil, o Negrê. Até então, o portal já contou com a colaboração de cerca de 40 jornalistas e profissionais de outras áreas de todos os nove estados da região. Idealizado em 2018 enquanto projeto de conclusão do curso Abdias do Nascimento – Comunicação e Igualdade Racial, oferecido pelos Sindicatos dos Jornalistas no Ceará (Sindjorce), o Negrê foi lançado, de fato, em 2020.

Além de Sara Souza, sócia e co-fundadora da iniciativa, Larissa conta que o twitter foi essencial para esse lançamento. É de lá que vieram grande parte dos colaboradores do site, que se mantém através de financiamento coletivo, patrocínios, mas, ainda, de investimentos particulares também. Larissa e Sara apostam financeira, fisica e mentalmente na iniciativa e nas parcerias que vêm sendo feitas nessa trajetória – destaque para o portal Alma Preta Jornalismo nessa missão.

A interiorização em tudo isso


Na outra ponta do nordeste, o processo de interiorização das universidades possibilitou que o agreste pernambucano pudesse inaugurar um espaço de promoção de análise crítica sobre os produtos midiáticos. O Centro Acadêmico do Agreste (CAA) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), localizado na cidade de Caruaru, desde 2016 conta com o Observatório da Vida no Agreste (OVA) para ampliar as discussões e investigar como o cotidiano fora das capitais se conectam com as mídias.

“O Ova é um fórum permanente de pesquisa e debate acerca de questões como modernidade, regionalidade, que busca sempre superar as falsas dicotomias e enxergar o global como local”, define Maria Souza, que é estudante de Comunicação Social do Centro. Ela conta que o projeto de extensão proporciona que pessoas de vivências quase inteiramente interioranas reeduquem seus olhares para as cidades em que nasceram e cresceram.

Durante a pandemia, os participantes do observatório ficaram responsáveis por registrar como a pandemia da Covid-19 impactou as cidades do Agreste de Pernambuco. Além dessas reportagens semanais, projetos como o Moderno Popular, que vai ao ar na página do Instagram do OVA, e o Reportagens Especiais também fizeram parte desse período de isolamento social no local. “Fazer essas produções mais longas demandaram tanto de mim como das outras pessoas um olhar mais clínico para a região que a gente tá inserido. De ver nossas questões de maneira mais aberta. São lugares que não tem uma visibilidade midiática, então enxergar como as pessoas lidam com as dificuldades diárias tem sido uma experiência incrível, mas ao mesmo tempo desafiador”. É através dessas iniciativas que Maria e outros estudantes do sertão e agreste tem tido seus contatos iniciais na área do jornalismo.

O Nordeste em meio a tudo isso

“O Nordeste não perde em nada para nenhuma outra região”, Joana Suarez faz um balanço geral da cena da comunicação independente no país e afirma que o nordeste desponta com trabalhos de grande repercussão e impacto nacional. Através das experiências com a Redação Virtual e outras como a newsletter Cajueiras (de produções independentes nordestinas), a jornalista entende que os jornalistas e comunicadores da região estão cada vez mais se apropriando do poder da comunicação local e nacional: “tem dado muito orgulho ver as coisas que estão sendo feitas!”

As edições mais recentes do Atlas da Notícia, pesquisa que mapeia a cobertura jornalística local nas cidades e estados brasileiros, indicam que o jornalismo digital tem sido essencial para diminuir a quantidade de desertos e quase desertos de notícias no País. O Norte e o Nordeste são as regiões que mais brasileiros têm pouco ou nenhum acesso à informações jornalísticas. O esforço de visibilizar esses territórios por fora dos estereótipos e preconceitos é constante e cada dia mais forte.

Quando questionada sobre uma dica para quem está se deparando com o cenário da comunicação agora, Carol Maia é bem direta: resistir. “A gente precisa cada vez mais de um Jornalismo profissional feito com seriedade e com foco no interesse público. Um Jornalismo que se posiciona e que qualifica o debate público, porque pessoas mais bem informadas tomam melhores decisões”, esperança a jornalista sobre um Brasil futuro.