O povo negro constrói o 20 de novembro todo dia, e você?

Atualizado: Mar 20

Coluna assinada por Eduarda Nunes

Rovena Rosa/Agência Brasil

Hoje, 20 de novembro, mais um Dia Nacional da Consciência Negra, data importante para o país que foi o último das Américas a abolir a escravidão. Oficialmente terminada em maio de 1888 e em novembro de 1889 oficialmente ocultada da história oficial do Brasil, como a gente pode conferir no hino da Proclamação da República. Pouco mais de um ano após o fim do cativeiro dos descendentes de África, já “nem lembravam” o que tinha acontecido por aqui. Já éramos todos iguais e livres em terras livres:


(...)

Liberdade! Liberdade! Abre as asas sobre nós Das lutas na tempestade Dá que ouçamos tua voz

Nós nem cremos que escravos outrora Tenha havido em tão nobre País Hoje o rubro lampejo da aurora Acha irmãos, não tiranos hostis

Somos todos iguais! Ao futuro Saberemos, unidos, levar Nosso augusto estandarte que, puro Brilha, ovante, da Pátria no altar!

(...)

Do Ipiranga, é preciso que o brado Seja um grito soberbo de fé! O Brasil já surgiu libertado Sobre as púrpuras régias de pé

Eia, pois, brasileiros, avante! Verdes louros colhamos louçãos! Seja o nosso País triunfante Livre terra de livres irmãos!

(...)

Fragmentos do hino de Proclamação da República. Novembro/1889

Mas o Movimento Negro, no sentido de movimento de resistência e contra-ataque às investidas racistas violentas que deixam seus rastros até hoje, existe desde o primeiro navio negreiro. O processo de escravidão e colonização foi/é tão perverso que atos como suicídios e abortos podem ser interpretados como atos de bravura frente ao destino que aguardava esses povos negros sequestrados de seus locais natais.


Chegando aqui os processos de aquilombamento, revoltas coloniais, criação de irmandades negras e outros movimentos coletivos deram continuidade ao objetivo maior do povo preto que é a emancipação comum. Todo mundo bem e todo mundo junto. Inúmeras organizações negras que tinham como principal intuito proteger, fortalecer e formar pessoas negras para sairmos do espaço de renegação e controle social foram criadas e extintas por todo o país desde sempre. A imprensa negra, os blocos afros, que em Pernambuco se destacam o Maracatu Nação Elefante de Dona Santa e o Afoxé Alafin Oyó, o Teatro Experimental do Negro e o Movimento Negro Unificado (MNU) tem grande relevância nesse âmbito.


Há exatos 519 anos que o povo negro se move para o fim de uma história que não foi criada por nós, mas que insistem em empregar como se fosse. A escravidão e a continuação dos processos de colonialidade no Brasil é um problema criado pelos brancos. Se a gente pega algumas das reinvindicações mínimas no MNU em 1981, quase 40 anos atrás, elas seguem atualíssimas ainda hoje. É o caso da desmistificação da democracia racial; organização para o enfrentamento da violência policial e a introdução da história da África e do negro no Brasil nos currículos escolares – sabemos que a lei 10.634 está bem longe de ser cumprida nas escolas.


Indo um pouco mais longe, seguimos com as mesmas reinvindicações das mães pretas que exigiam que seus filhos alforriados e nascidos livres tivessem acesso à educação pública de qualidade, como os filhos dos senhores e senhoras de engenhos tinham. O fim do encarceramento em massa e da guerra às drogas também não são pautas de agora: tem gente de todas as idades firme nessa estrada que é a luta pela erradicação do racismo no Brasil, que, sabemos, tá entranhado na estrutura social na qual o País foi erguido. Racismo estrutural e estruturante que chama.


O que ainda parece ser novo por aqui é a inclusão do povo branco nas discussões raciais. O que é esperado, já que as raças foram criadas pelos europeus para se autojustificarem superiores, a norma, o objetivo final de todo ser vivo em terra. Afinal, se o racismo fosse uma questão do negro e indígena, somente, tudo já tinha sido resolvido há tempos.


Em todo novembro a gente assiste, lê e escuta inúmeras produções sobre a situação dos negros brasileiros e ao redor do mundo. Ora delineando as dificuldades, ora valorizandos os traços culturais, ora fetichizando e folclorizando, ora clamando pelo dia da consciência humana e subjulgando o processo pelo qual a escravidão se deu aqui (a chicotada foi nas costas de outro). Pouco se fala sobre ser negro só passar a ser problema a partir da existência do Branco.


Citando clássicos, já diz Franz Fannon em Pele Negra, Máscaras Brancas (2008) que é o racista quem cria o inferiorizado e um sistema de opressão não se perpetua sem a conivência dos civis. E é aí que os brancos que se dizem aliados e antirracistas entram em jogo. Se, em se tratanto de feminismos, a gente sabe que um homem só escuta outro, nesse caso a gente pode assumir que um branco só escuta outro, inclusive porque não é obrigação de preto estar educando e afagando seu algoz.


Mas, e aí, como andam nossos brancos antirracistas por aqui?


Falar sobre o ponto de vista da gente, escrever livros, fazer filmes sobre nossas histórias e ir embora com todas as glórias sobre o que foi produzido não é ser antirracista. Se identificar como negro porque acha a cultura muito bonita ou porque tem algum parente que seja é uma das coisas que mais dificulta que a gente dê passos largos à frente. Dar fala às pessoas negras somente para contar sobre a condição do negro é abafar subjetividades e conhecimentos outros que também temos (supresa!). Descaracterizar espaços negros lotando de pessoas brancas é nos fazer perder locais que nos sentimos seguros e em unidade e transformar em chacota heranças sagradas que são nossas.


Julgar e comparar como nós reagimos diferentes a uma mesma situação não é ser antirracista. Exigir que perdoemos alguém de pronto porque pediu “desculpa”, dizer que estamos exagerando quando compartilhamos o que sentimos quando aconteceu x ou y é quase o mesmo que apontar uma faca. Ver algum amigo tendo atitudes racistas e deixar passar, porque não queria nos silenciar (supondo que é dever somente nosso) é covardia e só convence você mesmo(a).


A população negra tá na ativa, nunca parou e nem tem como. Perdemos vários pelo caminho, mas seguimos recuperando outros. Todo dia são 10 leões pra matar entre o abrir dos olhos e o deitar de sono ou cansaço, seja para garantir um futuro melhor pra si ou pros que vieram antes e depois. O que não falta, hoje, é exemplo de gente que consegue se formar grandes profissionais e intelecutais porque vieram 10 irmãos que não puderam antes. Nossa gigante Lélia Gonzalez, que sempre é citada por Angela Davis quando vem ao Brasil é uma delas: vieram 17 irmãos antes.


E graças a esses que vieram antes, hoje estamos ocupando espaços nas mais diversas áreas do conhecimento possível: seja no espaço acadêmico, na cultura pop, na cultura de rua, na música, na dança, nas letras – embora raramente em espaços de liderança. Somos muitos e somos plurais, somos mais da metade desse país. Na verdade, somos esse país quase inteiro e foi nosso suor que adubou essa terra: chegamos pelo Nordeste, depois migramos pro Sudeste, construímos as metrópoles e fomos jogados de ladinho nos morros, nas favelas, mas é tudo nosso, só não temos total entendimento. Ainda.


20 de novembro é mais uma data pra reforçar que a gente tá aqui todo santo dia. Trabalhando por nossa emancipação coletiva e dando continuidade aos passos que vem de longe. É uma data a ser celebrada, porque, embora todo o esforço empenhado durante todo esse tempo de Brasil em nos aniquilar, sobrevivemos e ainda oferecemos nossas riquezas para formação da Identidade Brasileira conhecida internacionalmente como ela é.

E você, o que tem feito contra o racismo?

A Retruco é uma agência de jornalismo independente de Pernambuco idealizada por jovens jornalistas, cineastas e designers que buscam novas maneiras de contar histórias através da combinação de formatos audiovisuais e textuais com um olhar crítico, sensível e criativo.

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