Mãe luta contra o IML pelo direito de enterrar o filho morto por homofobia

Atualizado: Mai 9

Reportagem: Matheus Rangel


Arte: Filipe Aca

Franciane de Souza mora em um pequeno apartamento de dois quartos em um conjunto habitacional na periferia de Luís Eduardo Magalhães, na Bahia. Do sofá vermelho na sala, vê-se a pia da cozinha onde seu filho mais velho, Guilherme, sempre estava lavando os pratos ou cozinhando. A lembrança lhe traz sofrimento. O menino alto, de cabelos cacheados pretos e sorridente, mas muito tímido, cuidava da casa e dos irmãos mais novos enquanto Franciane trabalhava. A cozinha agora fica vazia na maior parte do dia. No ano passado, Guilherme foi assassinado por ser gay.


Foi neste apartamento em que, na noite de 11 de julho de 2020, a polícia militar chegou procurando “a mãe de um rapazinho que mora aqui”. Franciane estava no quarto, dormindo, e acordou com a agitação dos vizinhos. Recebeu a pior notícia da sua vida cinco dias antes de completar 40 anos.


Guilherme, aos 21, foi apedrejado e queimado vivo a poucas ruas de casa. Do corpo, a única parte que escapou das chamas foi um dos pés, que Franciane reconheceu quando um policial mostrou a foto na porta do seu apartamento naquela noite. Ele usava uma sandália Havaianas verde, com estampa de flores, comprada por ela um dia antes. “Ele era tão limpinho que até o pé tava limpinho, tu acredita?”, recorda.


A mulher, que se considerava vaidosa e nunca deixou de cuidar da aparência, agora acha que não vai viver por muito mais tempo. Teve uma hemorragia no dia seguinte ao assassinato do filho que ainda não se curou - está sendo acompanhada por médicos, mas sangra se andar por mais de cinco minutos -, tem crises de ansiedade que provocam coceiras insuportáveis no rosto e, de repente, parou de escutar por um dos ouvidos. Só consegue dormir depois das cinco da manhã, mas apenas por algumas horas.


Quando está acordada, diz chorar da hora que se levanta até a hora que se deita. Perdeu a vontade de sair de casa e não conversa com mais ninguém. “O povo diz que o tempo ameniza a dor. Mas é mentira, a dor só aumenta e a saudade só aumenta. O tempo não cura nada”, lamenta ela.


“Eu nunca mais fui a mesma. Tem hora que eu me isolo dentro de casa, tenho crise de choro. Nunca tive coragem de abrir o guarda-roupa, evito olhar qualquer tipo de foto, quanto mais eu vejo mais eu entro em desespero. Eu caio e acabou a mulher. Criei um filho por 21 anos e agora tudo que eu tenho é a certidão de óbito. Um pedaço de papel”

O que a mantém em pé são os dois filhos mais novos. Maria Eduarda, de 9 anos, e Wesley, 6, sentem a falta do irmão todos os dias. Era Guilherme quem cozinhava as refeições, dava banho e até dormia com as crianças, apertados em uma cama de casal no segundo quarto do apartamento. Wesley, novo demais para entender o que aconteceu, adoece com certa frequência desde o crime. Em alguns dias, bate o pé e insiste que só vai comer quando Guilherme voltar para fazer o aviãozinho.


O irmão mais velho passou o dia com os mais novos nas últimas 24 horas em vida. Saiu de manhã e os levou para passear visitando as casas de alguns conhecidos e de uma tia. À noite, voltou para deixar as crianças e quase ficou. “Fica Guilherme, sai da rua”, pediu a mãe. Antes dele sair de novo, alertou que não passasse por uma rua escura e deserta nas proximidades: “Tinha medo que alguém pudesse mexer com ele”.


“Vão matar ele pra lá”


Foi em uma rua iluminada, contudo, na frente de outras pessoas, que Guilherme morreu nas mãos de um adolescente de 14 anos, golpeado com uma pedra até perder os sentidos. Com a ajuda de outro de 16 anos, foi arrastado até uma casa abandonada e queimado vivo em cima de um colchão.


Uma das testemunhas da violência, a dona de um bar próximo ao local do crime, reclamou apenas porque a movimentação poderia afastar clientes: “Vão matar ele pra lá”.


Num primeiro depoimento, o mais novo afirmou que a motivação seria uma discussão. Depois, admitiu que odiava gays e não gostou do jeito como o jovem o olhou, esclarecendo que cometeria o crime novamente se fosse preciso.

“Eu não tive coragem de ir lá ver, mas as pessoas que foram ficaram em pânico. A dor que ele passou, quanto não deve ter gritado. Deve ter chamado por mim, porque nessas horas a gente só se lembra de pai e mãe. O bichinho ainda tava vivo quando queimaram ele, apedrejaram, arrastaram na rua como se fosse um animal. E ninguém fez nada. Me disseram que ele estava com as mãos pra cima, como se tivesse tentando sair do fogo”, diz Franciane.


O ajudante fugiu e não foi encontrado, já o mais novo foi preso horas após o acontecimento. Sem antecedentes, ele foi solto poucos dias depois do velório de Guilherme, passados dois meses do crime. Seu corpo ficou retido no Instituto Médico Legal todo esse tempo para exames que Franciane até hoje não sabe quais. Ninguém se preocupou em explicá-la.


“Eu ainda acho que Guilherme nem olhou pra ele. Como mãe, eu conheço. Meu filho era muito conhecido e querido, ele ia na casa das pessoas e ajudava todo mundo que pedia. Era meus pés e minhas mãos. Quando ele morreu, algumas pessoas vieram aqui em casa me ajudar financeiramente. Diziam que era pra retribuir o que Guilherme tinha feito por elas”. Na imprensa local, a primeira cobertura do crime sugeria que Guilherme teria assediado seu agressor.


O enterro foi todo custeado pela prefeitura de Luís Eduardo Magalhães - cidade com 90 mil habitantes a 960km de Salvador - com caixão “do bom” e serviço funerário completo. Franciane diz que isso só aconteceu pela repercussão do caso, que atraiu para o município atenção da imprensa de todo o país.


“Você vai ser meu filho pra sempre”


Doente e sem ninguém para cuidar das crianças, Franciane deixou o emprego onde trabalhava como operadora de máquinas e agora depende da ajuda de amigos para sobreviver. Explica que Guilherme era seu alicerce, seu braço direito e melhor amigo. Ele morreu por ser gay, mas nunca chegou a se assumir sobre isso com a mãe.


“Às vezes eu sentava com ele e falava: eu sou sua mãe, te amo independente de tudo. Você vai ser meu filho pra sempre, eu te aceito. Mas ele chorava, dizia que não era”. Apesar da negação, Franciane lia as mensagens do filho no Facebook com outros homens quando ele usava o celular dela. “Sabe como é, mãe gosta de curiar”, ri.


O pai de Guilherme morreu três semanas antes de Franciane saber que estava grávida, aos 18 anos. Nos primeiros anos de vida dele, quem ajudou a dar banho e comida foi a avó materna, Dinalva. Os papéis se inverteram e nos últimos anos de vida dela foi Guilherme quem deu banhos e ajudou a avó a comer mediante dificuldades de locomoção em decorrência das doenças trazidas pela idade.


O carinho e a afeição pelo menino eram sempre exaltados por Dinalva: “Cuide do meu fi, não deixe ele a toa não”, dizia a avó. Ela morreu seis meses antes dele, e Francine acredita que eles estejam juntos em algum lugar. “Se ela tivesse visto ele partir, ela ia embora também. Não ia aguentar, foi até bom ter ido antes. Agora vou te dizer, você perder uma mãe e um filho de uma vez só não é fácil não”, reflete a mãe.


“Tenha cuidado, tem um cheiro ruim”


Como uma história de terror que insiste em não acabar, dolorosas lembranças ainda perseguem Franciane meses depois da morte do filho. “Todo dia é uma tortura, todo dia é uma coisa. Não acaba nunca”, ela lamenta ao telefone, logo após a visita de advogados que estão a ajudando a processar o estado.


No dia 17 de novembro, dois meses depois do sepultamento, Franciane foi chamada ao IML. Chegou lá esperando receber algum documento, mas saiu atordoada com mais uma violência. Com frieza, uma funcionária do Instituto Médico Legal a entregou em uma sacola de lixo preta os restos mortais de Guilherme. Sem nenhuma explicação ou documentos.


“Me disseram que era o fêmur dele. Eu nem sabia o que era isso. Veio sem documentação, sem nada. Andei pra cima e pra baixo por sete horas com aquilo dentro do carro, com um cheiro horrível e as moscas em cima. ‘Tenha cuidado, tem um cheiro ruim’, me disseram. Eles me disseram que era pra eu descartar. Queriam que eu fizesse o que? Guardasse dentro da minha geladeira?”

Indignada e atordoada na mesma medida, obrigou o Instituto Médico Legal a aceitar de volta o material, que posteriormente descobriu-se ser na verdade parte de um braço. Sem comunicá-la, a instituição alega que descartou os restos mortais de Guilherme em uma outra vala no mesmo cemitério em que ele foi enterrado. Franciane pede na justiça apenas o direito de juntar o que sobrou do seu filho.


“A gente tem que contar a história”


Ainda anestesiada pelo sofrimento da perda, Franciane conversou com diversos jornalistas nos dias que se seguiram à tragédia. Os requintes de crueldade do crime chamaram atenção de veículos locais e nacionais e a imagem da mãe desesperada, lágrimas nos olhos e mãos trêmulas se difundiu pelo país.


Mesmo no momento de maior fragilidade, Franciane quis falar: “A gente tem que contar a história, a gente não pode fechar os olhos. O povo fala que o gay tem problema, que é doente. Doente é quem faz isso. Matar a pessoa só por ser homossexual. Matar alguém por não ser do jeito que querem que seja”.


“Pra mim, qualquer homofóbico pode ser um assassino. Quem é homofóbico tem coragem de fazer qualquer mal. Por isso minhas amizades é tudo com gay. Era. Agora eu tô isolada, triste. Mas minha casa era cheia de gay e viado”.

Franciane é uma mulher de fé. Acredita em Jesus e em Oxalá, vai à missa e ao terreiro, não perde uma festa de Iemanjá. Gosta de dizer que é descambaleada entre as crenças, mas acredita - e muito. Nos meses que se seguiram à morte de Guilherme, só pediu ao divino por justiça.


Em uma ocasião, na delegacia da cidade, Franciane encontrou a mãe do assassino do seu filho. Duas mulheres, duas mães-órfãs. O criminoso acabara de ser morto com 15 tiros na cabeça e um na barriga na mesma rua iluminada em que tirou a vida de Guilherme com pedras e fogo. A polícia não encontrou os culpados.