Vítima da transfobia, Bruna sonhava em adotar filha antes de morrer

Atualizado: Mai 9

Reportagem: Matheus Rangel


Arte: Filipe Aca

Todas as noites, Bruna Lais mandava uma mensagem para a mãe, Zilda, antes de sair para trabalhar: “Mainha, tô saindo. Reze por mim”. Pela manhã, quando chegava em casa, fazia questão de enviar um áudio pelo WhatsApp avisando que estava sã e salva. Assim era a relação cotidiana entre mãe e filha, que permaneciam juntas mesmo separadas pelos 394km entre a pequena cidade de Macau, no Rio Grande do Norte, e Fortaleza, capital cearense.


No dia 25 de janeiro de 2020, porém, o áudio pela manhã não chegou. Em vez disso, Zilda recebeu uma ligação da polícia avisando que a sua filha havia sido assassinada a tiros por dois desconhecidos em uma moto enquanto comprava cigarros com uma amiga. A amiga sobreviveu e Bruna morreu no local, sendo levada direto para o IML. Ela tinha 23 anos e se identificava como travesti desde os 19.


Um ano e três meses depois, o crime ainda não foi solucionado. Nenhum suspeito foi identificado e as autoridades não levantaram nenhuma possibilidade para motivação do crime além de transfobia. Zilda acredita que não existe interesse da polícia em investigar o caso: “Para eles, é só mais uma travesti que morreu”, diz.

“Eu não entendo muito, mas tem motel perto, câmera, supermercado. Tem tudo isso e nada foi resolvido, ninguém consegue nada nem me fala nada”, completa a costureira de 56 anos que, desde o crime, não trabalha mais porque sentiu a hipertensão e a fibromialgia, contra as quais luta já há alguns anos, piorarem.


Zilda criou Bruna e mais dois filhos, Thelma e Adriano, no município do litoral potiguar com pouco mais de 32 mil habitantes, e se orgulhava da filha apesar do preconceito que testemunhava de estranhos e conhecidos. “Ela colocava o shortinho e a gente ia no mercado, na feira. Eu me agarrava com ela e a gente ia. Se alguém olhasse atravessado eu ficava braba, ia logo enfrentar”, conta.


A única coisa com a qual não concordava na vida da filha era a prostituição, que começou quando a jovem se mudou para Fortaleza: “A gente começou a viver muito próxima uma da outra, apesar que ela vivia muito no meio do mundo, porque ela vivia a vida de programa sem necessidade já que estudo ela tinha e dava pra viver sem ser nessa. Morreu fazendo isso. Eu só sei de uma coisa, sinto muita falta da minha filha”.


Sem oportunidades no mercado de trabalho formal, a atividade é a solução à qual recorrem cerca de 90% das travestis e transexuais do Brasil em busca de sobrevivência, de acordo com a ANTRA.


O objetivo da mãe, que nunca aprendeu a ler nem escrever, era que a jovem continuasse os estudos depois que se formou no ensino médio. Dois dias antes de morrer, Bruna avisou a Zilda que iria “sair dessa vida” e finalmente investir na faculdade de engenharia civil que planejava cursar. Ela, que havia sido adotada ainda bebê, sonhava em se estabilizar financeiramente para adotar uma menina e formar uma família. A futura avó se empolgava com a ideia.


A relação entre as duas só melhorou depois que Bruna se assumiu travesti e pediu para ser chamada pelo nome feminino. Apesar de se sentir surpresa, a mudança aproximou mãe e filha, que se tornaram confidentes. “Se ele apanhasse ele me dizia, se ele batesse ele me dizia. Ela, né. Quase não chamo Pedro Paulo mais, apenas de Bruna”.


De acordo com Zilda, situações de violência eram corriqueiras na vida de quem trabalha “na noite”, citando um episódio em que a filha foi agredida por estranhos nas ruas de Fortaleza.


A atenção e o carinho da filha são o que mais fazem falta para a mulher, que agora divide a casa apenas com o marido e afirma que, apesar de tudo, hoje está bem. “Há um ano e três meses, que é o período da morte dele, tudo mudou pra mim. Não sou mais a mesma pessoa, não tenho mais aquela atenção dela pra mim todos os dias. Mudou tudo. Eu era mais feliz quando ela era viva. A partir do momento que eu perdi, me sinto sem chão. Sinto muita falta da minha filha, fico imaginando o porquê. Pra mim aconteceu ontem, foi uma coisa muito repentina. Eu ainda não aceitei a morte dela”, diz.


A relação entre Bruna e o padrasto era tão boa que, quando realizasse a retificação de documentos, a jovem pretendia usar o sobrenome dele. Ela viajou ao Rio Grande do Norte para fazer isso, mas morreu antes do dia em que pretendia ir ao cartório para dar início ao processo.

Bruna não teve velório. Do Instituto Médico Legal, seguiu direto para o cemitério e foi enterrada sem uma cerimônia fúnebre. Zilda escolheu não realizá-la porque sentia que não teria condições de passar pela experiência. “Minha filha era muito amada, muita gente iria vir ver, visitar, se despedir. Eu não aguentei, estava muito fraca. Sou doente, precisava enterrar ela logo e ter a nossa despedida só eu e ela”, lembra. “Ela era minha vida, meu sentido de viver mais feliz. Hoje em dia eu vivo bem, mas só eu e Deus sabemos o que eu tive que passar”.


Apesar de sempre ter sido aceita pela mãe, que sempre fez questão de mostrar apoio desde que percebeu que o então filho de 9 anos tinha um “jeitinho diferente”, a situação não era a mesma com alguns outros familiares, incluindo os próprios irmãos.


Para Zilda, isso não importava. “Era só eu e ela e pronto e acabou-se. Não me importa mais ninguém”, declarou, afirmando que seria capaz de entrar em qualquer briga pela filha. “Fico perplexa com esse povo que vai pra TV dizer que preferia ter um filho bandido a um filho viado. Esse povo nem sabe o que é ser viado, jamais trocaria minha filha por nada”, protestou.


Para ela, quem deixa de aceitar filhos em razão de divergência de sexualidade e identidade de gênero está deixando de ser feliz. “Elas [as mães que não aceitam] estão perdendo muito. Perdendo de ser amadas e compreendidas, porque eu sempre fui muita amiga e Bruna nunca escondeu nada de mim. Mas ela se tornou melhor ainda depois de se assumir travesti. Essas mães que pensam assim não sabem o que é ser feliz”.


No ano em que Bruna completaria 25 anos, Zilda se prepara para viver o segundo Dia das Mães sem a filha. Ela culpa o preconceito pelo seu luto.