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As primeiras palavras dos GĂȘmeos

  • 31 de jan. de 2023
  • 7 min de leitura

Atualizado: 6 de jun. de 2024

Uma carta escrita por Willow Ximenes


Foto: Marlon Diego

Bitchhh, i'm gonna write about my titieeees!!!! (aqui, se eu pudesse, anexaria um ĂĄudio dando corpo a entonação exata dessa frase, que em portuguĂȘs significa: eu vou escrever sobre as minhas tetas). Brincadeiras Ă  parte, escrever sobre meus seios Ă© o mesmo que escrever sobre meu processo de autonomia, ou pelo menos gosto de fingir que Ă©, jĂĄ que essa associação Ă© atrativa demais para mim. Aqui, logo nesse inĂ­cio, jĂĄ pontuo que me esforçarei para fugir de dois monstros: escrever desnecessariamente difĂ­cil como forma de defesa e escrever nĂșmeros de morte, desgraça e precariedade.

— I'm out of this fucking mess (estou fora dessa bagunça), que vocĂȘs fizeram do Brasil, ser 'travecĂŁo' jĂĄ Ă© missĂŁo demais por si sĂł, aqui vamos falar de coisa boa, falar de peito.

Aos 12 eu nĂŁo queria ter peitos, mas jĂĄ queria autonomia. Engraçado que, por volta dos 8 anos, eu queria ser ‘peitologista’, profissĂŁo inexistente que inventei pra mim mesma, sĂł para ilustrar que amava peitos. SĂł nĂŁo tinha chegado a mim, ainda, que esse era um caminho possĂ­vel pro meu corpo. Hoje, aos 22 anos, escuto que parece que jĂĄ nasci assim, mal sabem quanto dinheiro foi torrado e quantas batalhas foram travadas. AtĂ© chegar aqui foi campo de guerra. Agora tĂĄ uma coisa mais fina, mais polĂ­tica e cheia de negociaçÔes. Ando em casa, moro sozinha, meus peitos sacodem e minha autoestima nem tĂĄ tĂŁo boa, mas pelo menos meu corpo Ă© sĂł meu. NinguĂ©m o quer tanto assim, pra carinho e coisas mil de verdade, mas nĂŁo Ă© sobre isso, prometo. Sem dramas.

O ponto Ă©, autoestima nĂŁo Ă© uma coisa que se tatua e fica lĂĄ pra sempre ou um silicone que se coloque. É um jogo tortuoso, Ă s vezes tĂĄ lĂĄ, e Ă s vezes some. Uma conversa gostosa que sai do prumo e os vizinhos escutam os gritos e os murros na parede.

Mas se Ă© conversa e uma das participantes Ă© vocĂȘ, quem estĂĄ do outro lado? Ah, querida, aqui moram vĂĄrios personagens, a pessoa que vocĂȘ performa pra sair de casa, a que sĂł existe dentro do quarto, o objeto atual do seu desejo, do seu tesĂŁo proibido e o da sua inveja tambĂ©m. Aquele ex infernal, seu pai, mĂŁe, sua amiga que vocĂȘ julga mais sensata... A lista Ă© infinita.

Abrindo o jogo com vocĂȘs: tenho para mim que Ă© impossĂ­vel ser feliz consigo mesma porque essa relação egoĂ­sta Ă© mais sobre ‘estar’ e sobre momentos valiosos que nĂŁo duram para sempre. AtĂ© porque se felicidade durasse para sempre perdia a graça, perdia o referencial ‘oposto’, de umbral, de estar fodida, de errar vĂĄrias vezes buscando validação em tudo que nĂŁo presta.

No começo da minha transição — palavra engraçada que as pessoas gostam de usar com trans e travesti, nĂ©? Como se tivĂ©ssemos que sair de um ponto, e pior, atingir outro. SĂŁo vĂĄrios compromissos que eu mesma nĂŁo assinei em lugar nenhum que estou de acordo. Foi sobre fugir da ideia de que meu corpo Ă© vazio ou, ainda pior, povoado por inĂșmeras feras que nĂŁo tenho controle.

Desde o inĂ­cio, foi sobre correr atrĂĄs de uma memĂłria de algo que nunca aconteceu, mas que parece extremamente aconchegante, calmo, morno, que envolve todo o corpo e faz sumir os problemas. E sim, eu sei que nĂŁo tem como ter sido travesti no Ăștero.

Engraçado que comecei a tomar hormĂŽnios para fugir da ansiedade e pĂąnico, que nem tinham ganhado esses nomes ainda e nĂŁo escapei, mudei meu nome pra fugir dEles, mas mantive o sobrenome do meu pai. No fundo, talvez eu nem quisesse escapar tanto assim. Recentemente, coloquei um par de peitĂ”es enormes, e adivinha? Continuo com pĂąnico e cheia de ansiedade. O ponto em comum entre todos esses momentos, que parecem um quebra-cabeças difĂ­cil de encaixar e, novamente, nĂŁo assumo o compromisso de montar essa bomba
 Em todos esses momentos, o que tem em comum Ă© que fiz o que fiz por autonomia.

A autonomia tem uma dose de ambivalĂȘncia na eterna disputinha baixa e vulgar entre destruir e criar. Dito isso, me peguei achando interessante como associei atĂ© aqui a criação de dois ĂłrgĂŁos, o cuidado e cicatrização com uma nova e inĂ©dita parte do meu corpo. Coloquei meus 'peitĂ”es' como massas de autonomia materializada - e custosa, diga-se de passagem, mas como disse, a autonomia tambĂ©m Ă© sobre destruir, matar e trair versĂ”es suas que nem sĂŁo tĂŁo suas assim. A autoria Ă© muito mais da mente esfarelada daquele ex que era obsessivo ou daquele pai que se questiona, com Ăłdio, como a porra dele deu origem a vocĂȘ. Ou atĂ© da sua cabecinha de mais nova que acredita em tantas necessidades, que, com o passar dos anos, perdem essa necessidade toda. O que quero dizer Ă©: autonomia Ă© querer ter controle sobre sua prĂłpria narrativa. E acho que esse controle tem um Q de Querer sobreviver, e essa sobrevivĂȘncia vai adquirindo requintes criativos com o passar do tempo. Afinal, falando de mim enquanto travesti, acho a ficção uma das minhas maiores armas e habilidades. 'Ficcionalizar' (versĂŁo chique de 'fantasiar') Ă© o caminho certeiro para ganhar vĂĄrias negociaçÔes e tornar o dia mais gostoso de viver. Falando de ficção, acabei voltando para a lembrança da minha primeira transa apĂłs me tornar mĂŁe de gĂȘmeos. Perdi muito a sensibilidade nos peitos. Muito se comparado a antes, claro. E nĂŁo Ă© que bastou 'ficcionalizar' o tesĂŁo, que deu certo? AtĂ© porque Ă© Ăłbvio que essa negociação era batalha ganha minha. Primeiro porque a primeira transa apĂłs peitĂ”es significa uma autoestima bafo. Segundo: eu coloquei meus peitos, no meu corpo, estamos na minha cama, na minha casa. — Bitch, this is fucking autonomy juice. (— Vadia, isso Ă© suco de autonomia).

Nessa de abraçar a possibilidade de fantasiar mais a vida, tem uma percepção que me acompanha: a de que ser travesti Ă© sempre estar pondo mais camadas em cima de si mesma. Nem estou falando do peso, como se fosse carregar uma cruz, tou falando de camadas mesmo. Se fosse possĂ­vel olhar de cima a minha curta trajetĂłria, eu entenderia que existiu uma sequĂȘncia de propostas e decisĂ”es. O objetivo? Continuar viva e melhorar essa vida.

Lembro que decidi tomar hormÎnios somente porque me questionaram: "nunca pensasse em tomar?" Agora, seis anos depois, entre altos e baixíssimos, diversos desequilíbrios psíquicos - e por estar gostosa, abri mão do uso. Tomar ou não, ambas decisÔes sobre o meu corpo, tomadas por mim, por diferentes razÔes, mas ambas falam sobre autonomia e, principalmente, sobre matar expectativas alheias. E qual a graça em viver sem trair a expectativa dos outros? Assim que meus peitos de hormÎnios começaram a aparecer eu ainda estava no colégio e lembro que usava faixa para esconder. Quem diria que agora eu ostentaria e ia amar jogar pro mundo 485ml de cada lado?

Now let’s talk about some dark side bitches, because they exist, gostando ou nĂŁo. (Agora vamos falar sobre as vadias do lado sombrio, porque elas existem). Uma gata que declare ‘me amo demais’ e/ou pronuncie qualquer frase que soe como ‘sou dona de mim’, facilmente Ă© colocada numa posição de egoĂ­sta, autocentrada e crĂĄpula. Afinal, se qualquer uma de nĂłs, travestis, entramos em um lugar, com nossa ficcionalização em dia, de sermos as gostosonas, ‘fuck don’t come to me, i’m a fucking star, bitch don’t get too close!’ ('Porra, nĂŁo venha atĂ© mim, eu sou a porra de uma estrela, vadia, nĂŁo chegue muito perto!'), como realmente somos, todas as inseguras e inseguros do recinto vĂŁo se tremer. VĂŁo se incomodar e direcionar toda a prĂłpria instabilidade para gente, na tentativa falha de diminuir minimamente o impacto e desconforto gostoso que causamos. Pra fora, bĂĄsicas e machinhos frĂĄgeis. Fora!

Ai, sabe de outra face complicada da ‘autonomia’? E não sei se pra mim isso bate forte por ser travesti ou por ser capricorniana (ou as duas coisas juntas), mas facilmente nessa corrida por autonomia, por controle da própria narrativa, já caí na cilada.

— Uh bitch and it’s fucking hurt me. (- Uh vadia e isso está me machucando pra caralh*).

1 - Estou sozinha enfrentando a dor que seja. A do momento ou nĂŁo, ninguĂ©m Ă© capaz de compreender. Logo, Ă© inĂștil trazer pra palavra e conversar sobre. 2 - Para conquistar a autonomia Ă© preciso obrigatoriamente fazer tudo sozinha. 3 - E ainda a mais maldosa de todas: se supostamente consigo fazer e dar conta de tudo sozinha (piada), e sou preterida afetivamente, vou erguer 500 muros e me isolar, dando adeus Ă  humanidade. Eita coisinha penosa, dor de cabeça babado de enfrentar. — E vamos deixar o ‘clona 2mg’ para outro momento, torcendo que esse momento nĂŁo chegue.

Foto: Marlon Diego

Sozinha, isolada, em guerra interna, cheia de raiva por sĂł se foder e quando tem um afago Ă© de uma maricona transfĂłbica penosa (homem cheio de problemas com a prĂłpria sexualidade). Neste cantinho, onde vocĂȘ acredita que sĂł cabe seu corpo disforme em ansiedade e necessidade de controle, o que surge Ă© caos, na mesma intensidade que vocĂȘ tenta conter tanta coisa que tem pra entregar ao mundo. O babado Ă©: a gente precisa de troca com outras pessoas. Preciso de escuta atenta. Tenho sede por carinho e pela oportunidade de ser vulnerĂĄvel sem ser ameaçada. Think about that, just fucking think about, bitch (Pense sobre isso, apenas pense sobre isso, vadia).

Escutei muito (na minha prĂłpria mente, porque na vida real foi uma Ășnica vez) que eu estava destruindo tudo ao meu redor por estar obcecada em colocar os peitos. E isso Ă© crime, mona? Me diz mesmo se, pra mim, que sempre estive na linha de frente para continuar construindo um caminho, vou ter que priorizar alguma coisa ou pior, alguĂ©m, ou, pior ainda, um homem, acima dos meus objetivos. E aqui duas coisas nĂŁo podem caber por tempo demais: 1. Ficar desestabilizada ao ouvir essa atrocidade 2. Demorar pra perceber que a Ășnica coisa "destruĂ­da" foi o ego penoso de um obsessivo inseguro, jĂĄ que todo o resto, mesmo afetado tem como “recuperar” e sequer negociar com os meus objetivos. Afinal, sou uma crĂĄpula, uma monstra mesmo. E, se estou onde estou e chegarei onde chegarei, essas sĂŁo as razĂ”es. Notas de encerramento: fiquei viciada em falar em inglĂȘs, e o que quero pra mim Ă© mais selvageria, mais liberdade para ficcionalizar em cima do meu corpo que, assim como minhas escolhas, sĂŁo sĂł minhas. Quero mais dinheiro, como boa capricorniana, afinal, autonomia Ă© tambĂ©m ter emprego para pĂŽr comida na mesa e ter calcinhas para usar bem enterradas, marcando tudo, inevitavelmente. Falando aqui em primeira pessoa, como fiz ao longo de todo o texto, porque meus objetivos sĂŁo sĂł meus, nĂŁo precisam ser de outras travestis e mulheres trans. E, nesse ponto, nĂŁo tem problema nenhum em ser cada uma por si. Agora, Ă© ler e reler pra ver se ficou bom que nem ficaram meus peitos.

 Um laboratório de jornalismo, criado por comunicadores do Nordeste, que se propõem a trazer o protagonismo as narrativas da região a partir de um ponto de vista questionador.

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