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As primeiras palavras dos Gêmeos

Atualizado: 1 de fev. de 2023

Uma carta escrita por Willow Ximenes


Foto: Marlon Diego

Bitchhh, i'm gonna write about my titieeees!!!! (aqui, se eu pudesse, anexaria um áudio dando corpo a entonação exata dessa frase, que em português significa: eu vou escrever sobre as minhas tetas). Brincadeiras à parte, escrever sobre meus seios é o mesmo que escrever sobre meu processo de autonomia, ou pelo menos gosto de fingir que é, já que essa associação é atrativa demais para mim. Aqui, logo nesse início, já pontuo que me esforçarei para fugir de dois monstros: escrever desnecessariamente difícil como forma de defesa e escrever números de morte, desgraça e precariedade.

— I'm out of this fucking mess (estou fora dessa bagunça), que vocês fizeram do Brasil, ser 'travecão' já é missão demais por si só, aqui vamos falar de coisa boa, falar de peito.

Aos 12 eu não queria ter peitos, mas já queria autonomia. Engraçado que, por volta dos 8 anos, eu queria ser ‘peitologista’, profissão inexistente que inventei pra mim mesma, só para ilustrar que amava peitos. Só não tinha chegado a mim, ainda, que esse era um caminho possível pro meu corpo. Hoje, aos 22 anos, escuto que parece que já nasci assim, mal sabem quanto dinheiro foi torrado e quantas batalhas foram travadas. Até chegar aqui foi campo de guerra. Agora tá uma coisa mais fina, mais política e cheia de negociações. Ando em casa, moro sozinha, meus peitos sacodem e minha autoestima nem tá tão boa, mas pelo menos meu corpo é só meu. Ninguém o quer tanto assim, pra carinho e coisas mil de verdade, mas não é sobre isso, prometo. Sem dramas.

O ponto é, autoestima não é uma coisa que se tatua e fica lá pra sempre ou um silicone que se coloque. É um jogo tortuoso, às vezes tá lá, e às vezes some. Uma conversa gostosa que sai do prumo e os vizinhos escutam os gritos e os murros na parede.

Mas se é conversa e uma das participantes é você, quem está do outro lado? Ah, querida, aqui moram vários personagens, a pessoa que você performa pra sair de casa, a que só existe dentro do quarto, o objeto atual do seu desejo, do seu tesão proibido e o da sua inveja também. Aquele ex infernal, seu pai, mãe, sua amiga que você julga mais sensata... A lista é infinita.

Abrindo o jogo com vocês: tenho para mim que é impossível ser feliz consigo mesma porque essa relação egoísta é mais sobre ‘estar’ e sobre momentos valiosos que não duram para sempre. Até porque se felicidade durasse para sempre perdia a graça, perdia o referencial ‘oposto’, de umbral, de estar fodida, de errar várias vezes buscando validação em tudo que não presta.

No começo da minha transição — palavra engraçada que as pessoas gostam de usar com trans e travesti, né? Como se tivéssemos que sair de um ponto, e pior, atingir outro. São vários compromissos que eu mesma não assinei em lugar nenhum que estou de acordo. Foi sobre fugir da ideia de que meu corpo é vazio ou, ainda pior, povoado por inúmeras feras que não tenho controle.

Desde o início, foi sobre correr atrás de uma memória de algo que nunca aconteceu, mas que parece extremamente aconchegante, calmo, morno, que envolve todo o corpo e faz sumir os problemas. E sim, eu sei que não tem como ter sido travesti no útero.

Engraçado que comecei a tomar hormônios para fugir da ansiedade e pânico, que nem tinham ganhado esses nomes ainda e não escapei, mudei meu nome pra fugir dEles, mas mantive o sobrenome do meu pai. No fundo, talvez eu nem quisesse escapar tanto assim. Recentemente, coloquei um par de peitões enormes, e adivinha? Continuo com pânico e cheia de ansiedade. O ponto em comum entre todos esses momentos, que parecem um quebra-cabeças difícil de encaixar e, novamente, não assumo o compromisso de montar essa bomba… Em todos esses momentos, o que tem em comum é que fiz o que fiz por autonomia.

A autonomia tem uma dose de ambivalência na eterna disputinha baixa e vulgar entre destruir e criar. Dito isso, me peguei achando interessante como associei até aqui a criação de dois órgãos, o cuidado e cicatrização com uma nova e inédita parte do meu corpo. Coloquei meus 'peitões' como massas de autonomia materializada - e custosa, diga-se de passagem, mas como disse, a autonomia também é sobre destruir, matar e trair versões suas que nem são tão suas assim. A autoria é muito mais da mente esfarelada daquele ex que era obsessivo ou daquele pai que se questiona, com ódio, como a porra dele deu origem a você. Ou até da sua cabecinha de mais nova que acredita em tantas necessidades, que, com o passar dos anos, perdem essa necessidade toda. O que quero dizer é: autonomia é querer ter controle sobre sua própria narrativa. E acho que esse controle tem um Q de Querer sobreviver, e essa sobrevivência vai adquirindo requintes criativos com o passar do tempo. Afinal, falando de mim enquanto travesti, acho a ficção uma das minhas maiores armas e habilidades. 'Ficcionalizar' (versão chique de 'fantasiar') é o caminho certeiro para ganhar várias negociações e tornar o dia mais gostoso de viver. Falando de ficção, acabei voltando para a lembrança da minha primeira transa após me tornar mãe de gêmeos. Perdi muito a sensibilidade nos peitos. Muito se comparado a antes, claro. E não é que bastou 'ficcionalizar' o tesão, que deu certo? Até porque é óbvio que essa negociação era batalha ganha minha. Primeiro porque a primeira transa após peitões significa uma autoestima bafo. Segundo: eu coloquei meus peitos, no meu corpo, estamos na minha cama, na minha casa. — Bitch, this is fucking autonomy juice. (— Vadia, isso é suco de autonomia).

Nessa de abraçar a possibilidade de fantasiar mais a vida, tem uma percepção que me acompanha: a de que ser travesti é sempre estar pondo mais camadas em cima de si mesma. Nem estou falando do peso, como se fosse carregar uma cruz, tou falando de camadas mesmo. Se fosse possível olhar de cima a minha curta trajetória, eu entenderia que existiu uma sequência de propostas e decisões. O objetivo? Continuar viva e melhorar essa vida.

Lembro que decidi tomar hormônios somente porque me questionaram: "nunca pensasse em tomar?" Agora, seis anos depois, entre altos e baixíssimos, diversos desequilíbrios psíquicos - e por estar gostosa, abri mão do uso. Tomar ou não, ambas decisões sobre o meu corpo, tomadas por mim, por diferentes razões, mas ambas falam sobre autonomia e, principalmente, sobre matar expectativas alheias. E qual a graça em viver sem trair a expectativa dos outros? Assim que meus peitos de hormônios começaram a aparecer eu ainda estava no colégio e lembro que usava faixa para esconder. Quem diria que agora eu ostentaria e ia amar jogar pro mundo 485ml de cada lado?

Now let’s talk about some dark side bitches, because they exist, gostando ou não. (Agora vamos falar sobre as vadias do lado sombrio, porque elas existem). Uma gata que declare ‘me amo demais’ e/ou pronuncie qualquer frase que soe como ‘sou dona de mim’, facilmente é colocada numa posição de egoísta, autocentrada e crápula. Afinal, se qualquer uma de nós, travestis, entramos em um lugar, com nossa ficcionalização em dia, de sermos as gostosonas, ‘fuck don’t come to me, i’m a fucking star, bitch don’t get too close!’ ('Porra, não venha até mim, eu sou a porra de uma estrela, vadia, não chegue muito perto!'), como realmente somos, todas as inseguras e inseguros do recinto vão se tremer. Vão se incomodar e direcionar toda a própria instabilidade para gente, na tentativa falha de diminuir minimamente o impacto e desconforto gostoso que causamos. Pra fora, básicas e machinhos frágeis. Fora!

Ai, sabe de outra face complicada da ‘autonomia’? E não sei se pra mim isso bate forte por ser travesti ou por ser capricorniana (ou as duas coisas juntas), mas facilmente nessa corrida por autonomia, por controle da própria narrativa, já caí na cilada.

— Uh bitch and it’s fucking hurt me. (- Uh vadia e isso está me machucando pra caralh*).

1 - Estou sozinha enfrentando a dor que seja. A do momento ou não, ninguém é capaz de compreender. Logo, é inútil trazer pra palavra e conversar sobre. 2 - Para conquistar a autonomia é preciso obrigatoriamente fazer tudo sozinha. 3 - E ainda a mais maldosa de todas: se supostamente consigo fazer e dar conta de tudo sozinha (piada), e sou preterida afetivamente, vou erguer 500 muros e me isolar, dando adeus à humanidade. Eita coisinha penosa, dor de cabeça babado de enfrentar. — E vamos deixar o ‘clona 2mg’ para outro momento, torcendo que esse momento não chegue.

Foto: Marlon Diego

Sozinha, isolada, em guerra interna, cheia de raiva por só se foder e quando tem um afago é de uma maricona transfóbica penosa (homem cheio de problemas com a própria sexualidade). Neste cantinho, onde você acredita que só cabe seu corpo disforme em ansiedade e necessidade de controle, o que surge é caos, na mesma intensidade que você tenta conter tanta coisa que tem pra entregar ao mundo. O babado é: a gente precisa de troca com outras pessoas. Preciso de escuta atenta. Tenho sede por carinho e pela oportunidade de ser vulnerável sem ser ameaçada. Think about that, just fucking think about, bitch (Pense sobre isso, apenas pense sobre isso, vadia).

Escutei muito (na minha própria mente, porque na vida real foi uma única vez) que eu estava destruindo tudo ao meu redor por estar obcecada em colocar os peitos. E isso é crime, mona? Me diz mesmo se, pra mim, que sempre estive na linha de frente para continuar construindo um caminho, vou ter que priorizar alguma coisa ou pior, alguém, ou, pior ainda, um homem, acima dos meus objetivos. E aqui duas coisas não podem caber por tempo demais: 1. Ficar desestabilizada ao ouvir essa atrocidade 2. Demorar pra perceber que a única coisa "destruída" foi o ego penoso de um obsessivo inseguro, já que todo o resto, mesmo afetado tem como “recuperar” e sequer negociar com os meus objetivos. Afinal, sou uma crápula, uma monstra mesmo. E, se estou onde estou e chegarei onde chegarei, essas são as razões. Notas de encerramento: fiquei viciada em falar em inglês, e o que quero pra mim é mais selvageria, mais liberdade para ficcionalizar em cima do meu corpo que, assim como minhas escolhas, são só minhas. Quero mais dinheiro, como boa capricorniana, afinal, autonomia é também ter emprego para pôr comida na mesa e ter calcinhas para usar bem enterradas, marcando tudo, inevitavelmente. Falando aqui em primeira pessoa, como fiz ao longo de todo o texto, porque meus objetivos são só meus, não precisam ser de outras travestis e mulheres trans. E, nesse ponto, não tem problema nenhum em ser cada uma por si. Agora, é ler e reler pra ver se ficou bom que nem ficaram meus peitos.

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