O que tem de realmente novo no “novo normal”?



Arte por Gabriella Borges

Coluna por Eduarda Nunes


Em meio à pandemia temos descoberto e redescoberto novas formas de se manter inesquecível. Popularizamos ainda mais as chamadas de vídeo, assistimos várias lives cotidianamente, nos inscrevemos em cursos à distância, até pra festa online a gente tá indo sem nem estranhar mais. É o novo normal que todo mundo tem comentado por aí (mas que, de longe, não tem como disputar com a delícia que é marcar um almocinho com aquela amiga que a gente vê pouco e ama muito. Conversar rosto no rosto, sdds).


A cada dia que passa, somos mais estimulados a ver a internet como o futuro e que é bom se adaptar. Não fique pra trás, renove-se em meio ao caos, dê uma corridinha no parque ou na praia (de máscara) e bora lá! No meio de tudo isso, o que não está dito é que essa nova forma de gastar os dias são possibilidades que não se aplicam a 100% dos brasileiros. O relatório Marco Civil da Internet: violações ao direito de acesso universal previsto na lei, elaborado pelo Intervozes, Coletivo Brasil de Comunicação Social, em 2018, revela que no Nordeste, por exemplo, somente 40% das casas têm acesso a cobertura de internet (sendo a cobertura nas áreas rurais mais precarizados do que nas urbanas). Em meio à Transformação Digital, uma parcela considerável de pessoas segue excluída.


A televisão e o rádio dão conta de dialogar com essas pessoas que não têm o traquejo necessário para acessar o novo normal e é nesses meios que a Prefeitura do Recife e o Governo do Estado têm investido bastante para justificar e demonstrar que a pandemia está controlada na cidade. Se fala em hospital de campanha estar sendo desativado, comércios abrindo, parques e praias sendo devolvidos aos recifenses que querem se exercitar, mas os ônibus continuam lotados e a Geju segue fazendo das ciclofaixas um instrumento de promoção de turismo em vez de encarar a bicicleta enquanto modal possível e viável em boa parte da cidade. Ao que parece, tá de boa. Dá pra sair de casa e voltar a ter a vida quase como era antes. Está tudo nos conformes, só falta a vacina.


Uma nota técnica elaborada pelo coletivo de negritude que atua no mandato do vereador Ivan Moraes (PSOL) confirmou o que, na prática, estava posto: a Covid-19 é mais letal nas periferias. Um estudo realizado a partir da composição econômica e racial dos bairros do Recife indicou que enquanto bairros de maior renda per capita (composto por pessoas brancas majoritariamente) desenvolvem-se maiores números de casos, é nos bairros mais pobres, negros e espacialmente desordenados que a Covid-19 mata mais. O racismo institucional tem sido ainda mais escancarado nesses últimos meses e, ao mesmo tempo em que nos precavemos do Corona, ainda temos o Aedes aegypti para nos preocupar, morte de criança para chorar e barreiras para conter e rezar para que elas não cedam quando chover. As crianças da rede pública seguem sem aulas e com pouco auxílio educacional nesse período et cetera.


Ao mesmo tempo em que as interações e vendas online dão um salto, as desigualdades sociais estão cada vez mais delineadas e perceptíveis no mundo off. As iniciativas antirracistas e antifascistas deram uma esfriada e, como esperado, os movimentos sociais seguem segurando as mãos, ou tentando, de quem não é assegurando pelos poderes públicos. Como se já não bastasse tudo o que estamos passando, o presidente agora trata de ser ele mesmo o garoto propaganda da cloroquina, interferindo e minando a atuação e credibilidade dos profissionais de saúde de todo o país.


A pandemia catalisa as desigualdades sociais. Se já estávamos temerosos pelas perdas constantes de direitos, saúde mental e proteções e regulações legais, o Coronavírus acelerou tudo. Ao mesmo passo em que o mundo acaba ainda mais pros brasileiros que são mais vulneráveis às decisões institucionais, o “novo normal” é instrumentalizado como tentativa de amortizar, senão invisibilizar, o caos. É claro que é importante se adequar à nova realidade, mas é imprescindível analisar essa realidade de forma integral. Não estar online não é sinônimo de ser invisível. Que sejamos atentos para construir uma realidade, de fato, nova.

A Retruco é uma agência de jornalismo independente de Pernambuco idealizada por jovens jornalistas, cineastas e designers que buscam novas maneiras de contar histórias através da combinação de formatos audiovisuais e textuais com um olhar crítico, sensível e criativo.

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